domingo, 19 de outubro de 2014

Precisamos falar sobre isto

Estamos enfrentando um grande número de suicídios na adolescência, a juventude negra se vê sem emprego, sem condições de melhoria de vida. As periferias onde habita nossa população vem ficando cada vez mais violenta. O racismo cada dia mostra mais a sua cara. Precisamos enfrentar isso.Dar um basta, senão cada dia aumentarão mais as estatísticas de suicídio dos adolescentes e jovens negros no país. Precisamos falar sobre isto, com certeza, mas principalmente, organizados agir contra isso. Maria Geneci Silveira 10/09/2014 Pioneiro Caxias do Sul-RS Opinião | Pág. 6 Clipado em 10/09/2014 02:57:02 ARTIGO Precisamos falar sobre isto, por Ricardo Nogueira* A sociedade já incorporou eventos de violência como um grave problema a ser enfrentado, elaborando ações e políticas com esse objetivo. O mesmo ainda não aconteceu com o suicídio, que permanece envolto por dificuldades na sua abordagem. O suicídio é usualmente resultante da ação recíproca de fatores biológicos, psicológicos, culturais, sociais, entre outros, que causa grande sofrimento àqueles que se relacionam com a vítima. É difícil explicar por que uma pessoa deseja acabar com sua vida, enquanto outras, em situações similares, não o fazem. Percebe-se que os atos autodestrutivos estão associados com a incapacidade do indivíduo de encontrar alternativas para seus problemas. As taxas de suicídio são três vezes maiores nos homens porque usam métodos mais violentos. Já as mulheres tentam se matar usando métodos menos letais. A incidência de suicídio aumenta com a idade, entretanto, nos últimos 45 anos observa-se uma elevação significativa dos índices em crianças, adolescentes e adultos jovens. No Brasil, há em média 32,3 suicídios/dia, em torno de 11.220 mortes/ano, um aumento de mais de 43% nos últimos 25 anos. O país está entre os 10 com maior número absoluto de casos. O RS está entre os Estados com as taxas mais elevadas e dos 20 municípios brasileiros com mais de 50 mil habitantes e que têm maiores coeficientes de suicídio, 10 são gaúchos. Apesar dos dados, pouco se fala sobre o assunto. De 2000 a 2012, o número de suicídios no RS sempre ficou acima dos mil casos/ano, porém em 2009 e 2010 houve redução de 12% com um trabalho de sensibilização, capacitação e treinamento de equipes de saúde. Cada suicídio afeta de cinco a 10 pessoas, os chamados sobreviventes, e o seu luto é diferente por causa de sentimentos de culpa e impotência. Daí a importância dos grupos oferecendo apoio mútuo. Estudos revelam que o fato de um indivíduo haver tentado uma vez suicídio aumenta muito a chance de nova tentativa, por isso, essas pessoas devem ser o foco das ações de vigilância e prevenção da área da saúde. Para cada suicídio, ocorrem no mínimo 10 tentativas. A situação clama por intervenções multissetoriais na construção de políticas de prevenção e promoção da qualidade de vida de forma integral. *Psiquiatra, coordenador do Centro de Promoção da Vida e Prevenção ao Suicídio do Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre

Enquanto as pesquisas atrasam, a doença avança

OUTUBRO ROSA 15/10/2014 Zero Hora Sua vida | Pág. 31 Clipado em 15/10/2014 03:10:01 Aproveitando o mês de conscientização sobre o câncer de mama, o Outubro Rosa, pesquisadores do Brest International Group (BIG) se reuniram com investigadores de grupos latino-americanos em Porto Alegre, ao longo dos últimos dias, para discutir preocupante situação que a America Latina têm enfrentado. Ao passo que aumentam os casos de câncer no território, as pesquisas clínicas – estudos para investigar os efeitos clínicos e farmacológicos de uma droga – não avançam na mesma proporção. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que 60% dos novos casos de câncer no mundo ocorrem na África, na Ásia, na América do Sul e na América Central. São nessas regiões, também, que as taxas de mortalidade têm aumentado em decorrência da doença. Conforme Martine Piccart-Gebhart, cofundadora do BIG, pesquisas clínicas são fundamentais para o desenvolvimento de novos tratamentos. Mas barreiras burocráticas atrasam o início das investigações. No Brasil, o caso é mais grave: – Somente em 2013, cerca de cem delas deixaram de ser feitas. Mais de 3 mil pessoas poderiam ter se beneficiado desses estudos – alertou Carlos Barrios, diretor-executivo da American Cooperative Oncology Group Latin (Lacog). Entre os fatores responsáveis, o especialista aponta a demora nas liberações a serem concedidas pela Comissão Nacional de Ética em Pesquisa (Conep) e pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa): – Enquanto nos EUA a média de espera para a aprovação de um novo estudo é de dois a três meses, no Brasil pode levar mais de um ano – explicou.

GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA: PREVALÊNCIA DE DEPRESSÃO, ANSIEDADE E IDEAÇÃO SUICIDA

Esse importante trabalho vem de encontro às preocupações que o MNU tem com a crescente onda de casos de gravidez na adolescência que atinge as meninas negras, pobres e sem o devida informação. Espero que tenham uma boa leitura. GISLEINE VAZ SCAVACINI DE FREITAS*, NEURY JOSÉ BOTEGA Trabalho realizado no Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas Universidade Estadual de Campinas, SP RESUMO  OBJETIVO: Determinar a prevalência de depressão, ansiedade e ideação suicida em adolescentes grávidas e verificar associações entre ideação suicida e variáveis psicossociais. MÉTODOS: A amostra foi composta por 120 adolescentes grávidas (40 de cada trimestre gestacional), de 14-18 anos, atendidas em um serviço público de pré-natal. Utilizaram-se a Entrevista Clínica Estruturada-edição revisada (CIS-R), a Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD) e a Escala de Ideação Suicida de Beck. A análise estatística utilizou os testes do Qui-quadrado, de Fisher e o teste U de Mann-Whitney. RESULTADOS: Foram encontrados 28 (23,3%) casos de ansiedade, 25 (20,8%) de depressão e 19 (16,7%) de ideação suicida. Não houve diferenças nesses quadros nos trimestres gestacionais. Tentativa de suicídio anterior à gravidez foi relatada por 16 (13,3%) adolescentes. A ideação suicida associou-se com depressão (p = 0,001), ser solteira sem namorado (p = 0,01) e contar com pouco apoio social (p = 0,001). Os casos de ideação suicida apresentaram alta freqüência de falta de concentração, ansiedade, depressão, preocupações, obsessões, idéias depressivas, fadiga, preocupações com o funcionamento do corpo e compulsões. As idéias depressivas foram o sintoma comum para os casos de depressão, de ansiedade, de ideação suicida e de tentativa de suicídio anterior. CONCLUSÕES: O grupo apresentou-se heterogêneo quanto à saúde mental. No entanto, diante da freqüência com que se observam quadros de depressão, ansiedade e ideação suicida em adolescentes, recomenda-se aos profissionais de saúde atenção para detectar a presença de idéias depressivas em adolescentes grávidas. UNITERMOS: Adolescência. Gravidez. Tentativa de suicídio. Depressão. Ansiedade. INTRODUÇÃO A gravidez é a primeira causa de internações (66%) em moças com idade entre 10 e 19 anos na rede SUS. Aproximadamente um quarto do total de partos são em adolescentes de 10 a 19 anos. A segunda causa de internações nessa mesma população corresponde ao grupo de causas externas, entre as quais, a tentativa de suicídio1. Cassorla2, ao realizar em Campinas um estudo clínico-epidemiológico do tipo caso-controle, incluindo 50 casos de tentativa de suicídio em jovens entre 12 e 27 anos, observou que um terço dessas haviam estado grávidas. Sugere que a gravidez seria apenas um evento em uma carreira de vários outros eventos interligados que levariam uma jovem a tentar o suicídio. Essa possibilidade foi reforçada pelos achados de Wagner et al.3 em estudo de caso-controle, envolvendo 1050 escolares com idade entre 12 e 18 anos: no grupo de jovens que haviam tentado suicídio houve relatos de maior atividade sexual, mais namoros, mais parceiros sexuais e gravidezes. A gravidez na adolescência associa-se a um risco suicida elevado, tanto durante a gestação, quanto no pós-parto, paralelamente a uma maior incidência de depressão e a uma percepção negativa da rede de apoio social4. Além disso, são freqüentes os registros de abusos físico e sexual nessa população5, o que se associa com a presença de ideação suicida6, com tentativas de suicídio e com sintomatologia depressiva crônica no primeiro ano após o parto7. Há necessidade de se conhecer melhor como as variáveis acima associam-se nesse contingente populacional, por exemplo: adolescentes grávidas estariam especialmente mais propensas à depressão e à ideação suicida? Esta última, quando presente, estaria associada a quais eventos ou características da história pessoal e das condições de vida dessas jovens? Poucos estudos foram delineados para responder essas questões, e nenhum em nosso meio. O presente estudo teve os objetivos de determinar a prevalência de depressão, ansiedade e ideação suicida em adolescentes grávidas, nos três trimestres da gestação; e de verificar possíveis associações entre ideação suicida e depressão, ansiedade, história de abuso sexual, de agressão física, de tentativa de suicídio anterior, intenção de engravidar, período gestacional, situação conjugal e apoio social. MÉTODOS Trata-se de um inquérito, do tipo transversal, incluindo avaliação clínica, realizado em adolescentes que se encontravam em diferentes períodos gestacionais. Local e Sujeitos Este estudo foi realizado no Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher (PAISM 2) de Piracicaba, SP. Este programa atende, pelo SUS, todas as grávidas adolescentes do município. Participaram deste estudo 120 adolescentes grávidas (40 no primeiro trimestre gestacional, 40 no segundo e 40 no terceiro trimestre) selecionadas por meio de uma lista de números aleatórios, entre as 329 atendidas no serviço entre outubro de 1999 e fevereiro de 2000. Os critérios de inclusão foram: 14-18 anos de idade, sem filhos, mínimo de cinco anos de escolaridade. Houve apenas uma recusa de participação. Instrumentos A avaliação das adolescentes foi feita de acordo com um protocolo científico específico, altamente estruturado, tendo sido algo paralelo à rotina do atendimento clínico que era oferecido pelo serviço de saúde. A fim de reduzir a subjetividade da avaliação e de aumentar a confiabilidade dos resultados, foram utilizados instrumentos de pesquisa epidemiológica já validados em nosso país: ? Questionário para orientar a anamnese, derivado do "European Parasuicide Standardized Interview Schedule"8, contendo as seguintes seções: dados sociodemográficos, história obstétrica, vida em família e rede de apoio social. A rede de apoio social inclui seis questões, com pontuação final variando de 0 a 6, sobre o apoio que o indivíduo sente que recebe da família, dos amigos, do(a) companheiro(a), sobre religiosidade, facilidade para fazer amigos e o sentimento de ser importante para alguém. ? Escala Hospitalar de Ansiedade e Depressão (HAD), instrumento de auto- preenchimento, com 14 questões de tipo múltipla escolha. Compõe-se de duas sub-escalas (pontuação de 0 a 21), uma para ansiedade, outra para depressão. A HAD foi desenvolvida para ser aplicada a pacientes de serviços não-psiquiátricos de hospital geral ou da atenção primária9, já tendo sido validada em nosso meio10. ? Escala de Ideação Suicida de Beck (BSI), de auto-preenchimento, contendo 21 itens11. A gravidade da ideação suicida é calculada somando os pontos dos primeiros 19 itens. Em nosso meio foi validada por Cunha et al(1997)12. ? Entrevista Clínica Estruturada - edição revisada (CIS-R), que avalia transtornos psiquiátricos não-psicóticos (minor psychiatric disorders). Consta de 14 seções: sintomas somáticos, fadiga, concentração, alterações no sono, irritabilidade, preocupações com o funcionamento corporal, depressão, idéias depressivas, preocupações, ansiedade, fobias, pânico, compulsões e obsessões. A freqüência, a intensidade, a persistência e o grau de incômodo ocasionado pelo sintoma são avaliados13. Ao final, a CIS-R solicita que o investigador estime a gravidade do quadro clínico, o que foi feito separadamente para ansiedade e depressão (0 = ausência de sintomas; 1 = sintomas sub-clínicos; 2 = sintomas leves; 3 = moderados; 4 = graves). Esse instrumento apresentou boa aplicabilidade em um estudo realizado em nosso país14. Procedimento As adolescentes foram abordadas na sala de espera e conduzidas a uma sala separada onde eram explicados os objetivos, a questão do sigilo, e a não obrigatoriedade da participação. As que consentiam, assinavam o termo de consentimento. Quando os pais ou responsáveis não estavam presentes, as autorizações de participação eram entregues para a paciente levar ao responsável para assinar e eram devolvidas na próxima consulta obstétrica. No caso da constatação de transtorno mental significativo, ou de risco de suicídio, a adolescente era encaminhada ao serviço de saúde mental. Análise dos dados Pontuação maior ou igual a 12 nas 14 seções da CIS-R definiram um "caso" de morbidade psiquiátrica, cuja gravidade, na prática, exigiria alguma atenção específica de parte do profissional13,14. A determinação de "casos" de ansiedade/depressão deu-se sempre que os três critérios seguintes fossem preenchidos: (a) pontuação igual ou superior a dois na seção "ansiedade" da CIS-R (no caso de depressão, pontuação igual ou superior a quatro na soma das seções "depressão" e "idéias depressivas"); (b) pontuação igual ou superior a dois na escala de gravidade dos sintomas para ansiedade/depressão; e (c) pontuação igual ou superior a oito nas sub-escalas de ansiedade/depressão da HAD10. Esse procedimento, bem como os pontos de corte utilizados, correspondem aos que foram anteriormente adotados nos estudos de validação10,14. Consideramos como presença de ideação suicida uma resposta afirmativa à questão 4 ou 5 da BSI11. A estimativa de grandeza para a variável apoio social foi dividida em três faixas, a fim de propiciar melhor desempenho estatístico: pequeno apoio social (0 a 2 pontos); médio (3 a 4 pontos); grande (4 a 6 pontos). Os dados foram codificados e inseridos no banco de dados Epi-Info, versão 6.0. Esse banco de dados foi transportado para o programa SAS, versão 6.12, no qual foram feitos testes de associações (Qui-quadrado, Fisher e o teste U de Mann-Whitney). RESULTADOS As principais características sociodemográficas das participantes deste estudo encontram-se na Tabela 1. Trinta e sete por cento haviam deixado a escola há mais de um ano. (Tabela 1). A média de idade do pai do bebê das adolescentes grávidas foi de 21,5 anos (DP = 4,8; variação: 15 - 50 anos). O tempo, em média, do relacionamento das adolescentes com os pais de seus bebês era de 18,5 meses (DP=14,6; variação: 1- 84 meses). A separação dos pais aconteceu na família de 50% das adolescentes, sendo que em 64,4% (n=38) ocorreu antes que as adolescentes tivessem 11 anos. Em 10,2% (n=6) dos casos, os pais nunca moraram juntos. A idade da mãe das adolescentes pesquisadas, em sua primeira gestação, teve como média 18,8 anos e mediana de 19 anos (DP = 3,1; variação: 12  28). O abuso físico foi relatado por 50 (41,6%) adolescentes, tendo sido perpetrado, na maioria das vezes, pelos genitores (pai: 21, mãe: 14, irmãos: 8, avós: 7). Dezenove (15,8%) adolescentes foram vítimas de abuso sexual (agressores: pai (3), padrasto (3), tio (2), avô (1), conhecidos (5), desconhecidos (5). A idade na menarca teve como média=12,2 anos (dp=1,3) e a idade na primeira relação sexual teve média = 14,6 anos (dp=1,6). Das 120 adolescentes, 55 (45,8%) tinham intenção de engravidar. A tentativa de aborto na gravidez atual foi relatada por nove (7,5%) adolescentes, e 10 (8,3%) delas relataram história de aborto anterior. Morbidade psiquiátrica: ansiedade, depressão e ideação suicida Sessenta adolescentes (50%) atingiram na CIS-R nível para suspeição de "caso" de morbidade psiquiátrica não-psicótica. Não houve diferença estatística nas prevalências de ansiedade, depressão e ideação suicida nos três trimestres gestacionais (Tabela 2). Doze adolescentes (10%) tinham ansiedade e depressão concomitantemente. À época deste estudo, 20 (16,7%) adolescentes relataram ideação suicida, oito (40%) também apresentavam ansiedade e depressão, cinco (25%) apresentavam apenas depressão, duas (10%) apresentavam apenas ansiedade. Cinco (25%) já haviam tentado suicídio anteriormente. Apenas cinco (25%) dessas 20 adolescentes não foram consideradas "casos" de ansiedade ou de depressão. Os resultados dos testes de associação entre ideação suicida e demais variáveis encontram-se na Tabela 3. Do total de participantes, 16 (13,3%) haviam tentado o suicídio anteriormente (dois no primeiro trimestre da atual gestação). Foram encaminhadas para um serviço de saúde mental 32 adolescentes (27%). No entanto, verificamos que apenas oito delas (25%) compareceram à consulta marcada. DISCUSSÃO Tanto quanto pudemos apurar, este estudo é, em nosso meio, o primeiro de cunho epidemiológico que fornece dados sobre ansiedade, depressão e ideação suicida em adolescentes grávidas, nos três trimestres gestacionais. Algumas limitações metodológicas devem ser consideradas: não se trata de um corte, mas sim de três amostras transversais, o que restringe extrapolações em termos de um continuum. A ausência de um grupo-controle impossibilita a comparação com adolescentes que não se encontram grávidas. O fato de a população estudada pertencer a um único estrato social também restringe o poder de generalização dos resultados. A utilização, no presente estudo, de vários instrumentos de pesquisa tem sido prática corrente na pesquisa epidemiológica em saúde mental. Isso porque, ao contrário do que ocorre na clínica, onde a experiência e a intuição do profissional são extremamente valorizadas, em pesquisas populacionais procura-se reduzir, por meio de instrumentos estruturados, o grau de subjetividade na coleta e na interpretação dos dados13. A determinação de depressão ou de ideação suicida, por exemplo, aqui não se baseou em apenas um "sim ou não" , porém na exploração das respostas a vários itens de instrumentos de pesquisa conhecidos e amplamente utilizados em epidemiologia psiquiátrica8-14. O fato de a história de abuso sexual e de abuso físico ter sido apurada sem a utilização de um instrumento detalhado, a nosso ver, pode ter conduzido a uma subestimação desses problemas, ainda que a maioria das entrevistadas tivesse parecido à vontade para se abrir a esse respeito. Quase a metade das adolescentes do presente estudo (45,83%) queriam engravidar, como ocorreu em outro estudo nacional, com 384 adolescentes grávidas avaliadas na Santa Casa de São Paulo15. A exemplo do que apuramos aqui, outros estudos também demonstraram que, dentre as adolescentes que desejavam ter o filho e estão casadas ou em união consensual, a maioria demonstra estar feliz, cumprindo o seu papel social16 e, muito provavelmente, realizando um desejo, consciente ou inconsciente, de ser mãe17. Embora muitos autores considerem a ansiedade como um sintoma comum a toda gravidez, nós não encontramos ansiedade em todas as adolescentes grávidas. As prevalências de sintomas de depressão (20,8%), assim como de ansiedade (23,3%), não apresentaram diferenças estatísticas entre os grupos dos três trimestres gestacionais. Embora haja menos casos de ansiedade no segundo trimestre, isso não foi estatisticamente significativo. Estes dados são discordantes dos obtidos por Viçosa18, que em um estudo de observação clínica por 10 anos, encontrou ansiedade mais elevada no primeiro trimestre, devido a preocupações em torno das relações com os pais, e, no terceiro trimestre, o surgimento mais freqüente de quadros depressivos. Lederman et al.19, realizando um estudo prospectivo de 32 primigestas, encontraram maiores níveis de ansiedade também no primeiro trimestre gestacional, com declínio no segundo e novamente um aumento com a proximidade do parto. As distinções entre formas de coletar dados (no caso do presente estudo por meio de instrumentos padronizados), bem como a maneira de interpretá-los, podem, pelo menos em parte, explicar essas discrepâncias. Comparando as prevalências de depressão em adolescentes grávidas com estudos realizados em adolescentes em geral, nossos achados estão acima dos 4,7% encontrados por Kashani et al.20 (n=150, 14 a 16 anos) e acima dos 4,5% encontrado por Serfaty et al.21 em 553 jovens de 18 anos, em Buenos Aires, para depressão maior. Esse último estudo, no entanto, quando adotou um critério mais exigente, considerando apenas os casos de "depressão moderada", mostrou uma porcentagem mais próxima à nossa: 26,6%. Como costuma ocorrer ao se examinar estudos epidemiológicos, esses números devem ser comparados com cuidado, devido aos distintos instrumentos que os autores utilizam, faixas etárias diferentes e, principalmente, critérios de definição de caso. A mesma discrepância relatada acima acontece ao compararmos a prevalência da ideação suicida com outros trabalhos. No presente estudo, a prevalência da ideação suicida (16,7%) está acima dos 4% encontrados por Soares (1994)22 numa população de jovens brasileiros entre 15 e 19 anos. Nesse último estudo, no entanto, o estabelecimento de presença ou ausência de ideação suicida baseou-se tão somente na formulação de uma única pergunta, o que, possivelmente, pode ter subestimado a freqüência de ideação suicida entre as jovens consultadas. Nossos dados estão próximos aos de Gonzalez-Forteza et al.23 que utilizaram, em um estudo transversal, uma escala de ideação suicida com quatro itens em 1712 mulheres adolescentes da Cidade do México: 11,8%. Mas estão abaixo do encontrado por Rey Gex et al.41, que realizaram um estudo transversal numa população de jovens (n= 9268) na Suíça, onde a prevalência de ideação suicida foi de 26%. Koniak-Griffin & Lesser25 observaram, em um estudo do tipo caso-controle, que 18% das adolescentes grávidas e pais adolescentes haviam considerado o suicídio e que 10% já o haviam tentado, número parecido com os 13% de adolescentes, que avaliamos, com história de tentativa pregressa. As adolescentes com ideação suicida (16,7% da amostra) eram predominantemente solteiras e contavam com pouco apoio social. Essas associações corroboram o que outros autores já haviam assinalado24,26,27. Também encontramos associação significativa entre ideação suicida e depressão/ansiedade24,28,29. Com base em nossos achados, concordamos com a revisão de Vásquez & Piñeros4, ao afirmar que a gravidez na adolescência apresenta um risco suicida elevado, tanto durante a gestação, quanto no pós-parto, associando-o a uma maior incidência de depressão e a uma percepção negativa da rede de apoio social. Esse perfil, no entanto, não se aplica a todas as adolescentes grávidas mas, especialmente a um subgrupo, em torno de um quinto do total, que manifesta ansiedade, depressão, ideação suicida e que conta com pouco apoio social. Para tal subgrupo, suas vidas não eram importante para alguém, algumas diziam que sua vida era importante para o futuro bebê. Uma das adolescentes que havia tentado suicídio quatro vezes e sofrido abuso sexual do pai, descreveu essa exclusão ou "falta" de um significado para vida de uma forma bastante clara: "Antes da gravidez eu tinha um buraco em mim, não sabia para onde ir, andava sem rumo, na bagunça. Agora estou cheia, o buraco foi preenchido, e sei que preciso cuidar de meu filho. Fiquei forte, parei com a bagunça, tenho para onde ir, meu filho precisa de mim". Seria esta uma tentativa de formar uma rede de apoio interna, já que a sociedade não ajuda neste sentido? Para Ayres et al.30, a exclusão dos processos comunicacionais, dos espaços institucionais e da cidadania plena seria um potente determinante de vulnerabilidade dos adolescentes aos danos decorrentes do uso de drogas, exposição à Aids e à gravidez precoce. "Eles estariam se arriscando com o necessário (...) restrito a poucas alternativas possíveis. (...) Quando só se pode escolher entre ser feliz correndo risco ou não ser feliz, o que a grande maioria de nós escolheria?". CONCLUSÕES Tendo em vista os objetivos deste estudo, pudemos concluir que as prevalências de depressão, ansiedade e ideação suicida apresentaram-se aproximadamente iguais nos diferentes trimestres gestacionais (Depressão: 27,5; 17,5; 17,5, respectivamente; média = 20,8. Ansiedade: 22,5; 15; 32,5, respectivamente; média = 23,3. Ideação suicida: 20; 15; 15, respectivamente; média = 16,7). A ideação suicida associou-se estatisticamente com a presença de depressão, ansiedade, pouco apoio social e estado civil solteira. Podemos concluir que as adolescentes grávidas apresentaram-se como um grupo heterogêneo: havia as que estavam felizes com sua condição, dizendo que tinham feito de tudo para estarem grávidas. Em outro extremo, havia adolescentes cuja gravidez aparecia como a única esperança em uma vida de muita violência e desespero. Sentiam-se sós, desamparadas, chegando a pensar em suicídio. Esse perfil aplica-se especialmente a um subgrupo, em torno de um quinto do total, que manifesta ansiedade, depressão, ideação suicida e que conta com pouco apoio social. Dessa forma, o atendimento pré-natal de adolescentes grávidas confirma-se como uma excelente oportunidade de se conjugar esforços de diferentes profissionais, a fim de melhorar a detecção e a condição psicossocial dessas gestantes e, conseqüentemente, de seus futuros bebês. SUMMARY Prevalence of depression, anxiety and suicide ideation in pregnant adolescents BACKGROUND: The purpose of this study was to determine the prevalence of depression, anxiety and suicide ideation among pregnant adolescents and verify the relationship between suicide ideation and other variables. METHODS: 120 pregnant adolescents (40 in each gestational trimester) attended at a public health center in Brazil were assessed. The following research instruments were used: the Clinical Interview Schedule (CIS-R), the Hospital Anxiety and Depression scale (HADS) and the Beck's Suicide Ideation Scale (BSI). The Chi-square test, the Fisher´s and the Mann-Whitney U tests were performed. Results: There were 28 cases of anxiety (23.3%), 25 (20.8%) of depression and 20 cases of suicide ideation (16.7%). There was no difference in these prevalences in the gestational trimesters. There was a significant relationship between suicide ideation suicide and depression (p = 0.001), single individuals without boyfriends (p = 0.01) and little social support ( p = 0.001). Cases of suicidal ideation presented a high frequency of lack of concentration, anxiety, depression, preoccupations, obsessions, depressive ideas, tiredness, worries concerning body functions and compulsions. CONCLUSION: The group of pregnant adolescents showed heterogeneous results regarding mental health. The most common symptom of depression, anxiety, ideation suicide and previous suicide attempts were depressive ideas. The health professionals working with pregnant adolescents should observe them carefully, in order to detect the presence of depressive ideas. [Rev Assoc Med Bras 2002; 48(3): 245-9] KEY WORDS: Adolescence. Pregnancy. Suicide attempt. Depression. Anxiety. REFERÊNCIAS 1. Datasus. Banco de dados do Sistema Único de Saúde 1999. Disponível em: http://www.datasus.com.br. [ Links ] 2. Cassorla RMS. Jovens que tentam suicídio: relacionamento social, gravidez e abortamentos: um estudo comparativo com jovens normais e jovens com problemas mentais (III). J Bras Psiquiatr 1985; 34:151-6. Links ] 3. Wagner BM, Cole RE, Schwartzman P. Psychosocial correlates of suicide attempts among junior and senior high school youth. Suicide Life Threat Behav 1995; 25:358-72. [ Links ] 4. Vasquez R, Piñeros S. Psicopatologia en madres adolescentes. Pediatria (Bogotá) 1997; 32:229-38.[ Links ] 5. Covington DL, Dalton UK, Diehl SJ, Whight BD, Piner MH. Improving detection of violence among pregnant adolescents. J Adolesc Health 1997; 21:18-24. [ Links ] 6. KoniakGriffin D, Walker DS, Traversay J. Predictors of depression symptoms in pregnant adolescents. J Perinatol 1996; 16:69-76. [ Links ] 7. Lesser J. Childhood abuse, depression, and maternal role attainment in adolescent mothers. J Adolesc Health 1998; 137.[ Links ] 8. Keckhof AJFM, WHO. Euro Multicentre Study on Parasuicide. Leiden: WHO; 1989. [ Links ] 9. Zigmond AS, Snaith RP. The hospital anxiety and depression scale. Acta Psychiatr Scand 1983; 67:3706. [ Links ] 10. Botega NJ, Bio MR, Zomignani MA, Garcia Junior C, Pereira WAB. Transtornos de humor em enfermaria de clínica médica e validação de escala de medida (HAD) de ansiedade e depressão. Rev Saude Publica 1995; 29:355-63.[ Links ] 11. Beck AT, Steer RA. Beck scale for suicide ideation: manual. San Antonio: Psychological Corporation; 1993.[ Links ] 12. Cunha JA, Werlang BG, Fin JN. Estudo sobre algumas variáveis preditoras de ideação suicida em pacientes com história de tentativa de suicídio. In: Anais VI Jornada de Psiquiatria da Região Sul, VI Jornada Catarinense de Psiquiatria do Mercosul. Santa Catarina; 1997. [ Links ] 13. Lewis G, Pelosi AJ, Araya R, Dunn G. Measuring psychiatric disorder in the community: a standardized assessment for use by lay interviewers. Psychol Med 1992; 22:465-86. [ Links ] 14. Botega NJ, Zomignani MA, Garcia Junior C, Bio MR, Pereira WAB. Morbidade psiquiátrica no hospital geral: utilização da edição revisada da "Clinical Interview Schedule CIS-R". Rev ABP-APAL 1994; 16:57-62. [ Links ] 15. Coates V, Correa MM. Características de 462 adolescentes grávidas em São Paulo. In: Anais V Congresso de Adolescência. Belo Horizonte; 1993. p.581-2.[ Links ] 16. Domingues Junior JS. Fatores etiológicos relacionados à gravidez na adolescência: vulnerabilidade à maternidade. In: Schor N, Motta MSFT, Branco VC, organizadores. Cadernos juventude, saúde e desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde; 1999. v.1, p.223-9. [ Links ] 17. Medrado B, Lira J. A adolescência "desprevenida" e a paternidade na adolescência: uma abordagem geracional e de gênero. In: Schor N, Motta MSFT, Branco VC, organizadores. Cadernos juventude, saúde e desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde; 1999. v.1, p.230-48. [ Links ] 18. Viçosa G. Atendimento em grupo a gestantes adolescentes e seus companheiros: uma experiência de 10 anos. Rev Psiquiatr 1993; 15:65-9. [ Links ] 19. Lederman RP. Anxiety and conflict in pregnancy: relationship to maternal health status. Annu Rev Nurs Res 1984; 2:27-61. [ Links ] 20. Kashani JH, Carlson GA, Beck NC. Depression, depressive symptoms, depressive mood among a community sample of adolescents. Am J Psychiatry 1987; 147:931-4. [ Links ] 21. Serfaty E, Andrade J, D'Áquila H, Masautis AE, Foglia L. Depressión grave y factores de riesco en Buenos Aires. Acta Psiquiatr Psicol Am Latin 1995; 41:35-9.[ Links ] 22. Soares KV, Almeida-Filho N, Botega NJ, Coutinho ESF, Mari JJ. Prevalência de sintomas depressivos em três centros urbanos brasileiros. Bol Psiquiatr 1994; 27:9-13. [ Links ] 23. González-Forteza C, BerenzonGorn S, TelloGranados AM, Fácio-Flores D, Medina-Mora ME. Ideacón suicida y características asociadas en mujeres adolescentes. Salud Publica Mex 1998; 40:430-7. [ Links ] 24. Rey Gex C, Narring F, Ferron C, Michaud PA. Suicide attempts among adolescents in Switzerland: prevalence, associated factors and comorbidity. Acta Psychiatr Scand 1998; 98:28-33.[ Links ] 25. KoniakGriffin D, Lesser J. The impact of childhood maltreatment on young mothers' violent behavior toward themselves and others. J Pediatr Nurs 1996; 11:300-8. [ Links ] 26. Mazza JJ, Reynolds WW. A longitudinal investigation of depression, hopelessness, social support, and major and minor life events and their relation to suicidal ideation in adolescents. Suicide Life Threat Behav 1998; 28:358-74. [ Links ] 27. Barnet B, Joffe A, Duggan AK, Wilson MD, Repke JT. Depressive symptoms, stress, and social support in pregnant and postpartum adolescents. Arch Pediatr Adolesc Med 1996; 150:64-9. [ Links ] 28. Ghaziuddin MDN, King CA, Naylor MW, Guaziuddin M. Anxiety contributes to suicidality in depressed adolescents. Depress Anxiety 2000; 11:134-8. [ Links ] 29. Kovacs M, Goldston D, Gatsonis C. Suicidal behaviors and childhood-onset depressive disorders: a longitudinal investigation. J Am Acad Child Adolesc Psychiatry 1993; 32:8-20. [ Links ] 30. Ayres JRCM, Calazans GJ, França Junior I. Vulnerabilidade do adolescentes ao HIV/Aids. In: Vieira EM, Fernandes MEL, Bailey P, Mckay A, organizadores. Seminário gravidez na adolescência. Rio de Janeiro: Associação Saúde da Família; 1998. p.98-109. [ Links ]

sábado, 20 de setembro de 2014

Mulheres negras e política: raça e gênero nas eleições gaúchas.

20 de setembro de 2014 02:43 Por Sandrali de Campos Bueno. O cenário político, como todo, é um terreno bastante hostil para as mulheres. Infelizmente, ainda somos criadas visando o espaço privado, o cuidado com o lar, com a família e as atividades domésticas. A política, como coisa pública que é, ainda continua sendo um espaço em que as mulheres são colocadas em segundo plano. Embora o acesso das mulheres aos partidos políticos tenha aumentado significativamente, oriundo de muitas lutas das próprias mulheres, o poder continua concentrado nas mãos e nas vozes dos homens. No que tange às mulheres negras, esse quadro se torna ainda mais preocupante. O racismo, assim como o machismo, estrutura a sociedade e, portanto, embora sejamos a maioria populacional do pais, somos sub-representadas. A Assembléia Legislativa gaúcha nunca elegeu uma deputada negra. O número de mulheres negras ocupando cargos no executivo brasileiro (prefeitas e governadoras) é pífio, além disso, os próprios partidos políticos silenciam as suas figuras públicas femininas e negras. O acesso aos recursos partidários para as negras é ainda menor, fazendo com que nossas dificuldades eleitorais sejam ainda mais expressivas. Concomitantemente, em decorrência da divisão sexual e racial do trabalho, nossas jornadas acumulam-se, o que obsta uma inserção mais incisiva de nossas companheiras nas disputas eleitorais. Embora tenhamos tres mulheres disputando o executivo nacional e uma mulher na disputa do poder executivo estadual, não basta ser mulher. É preciso estar conectada com as demandas dos movimentos de mulheres, comprometida com a efetiva reestruturação do sistema político brasileiro, com a promoção de políticas públicas contundentes que possibilitem maior espaço e condições para que cada vez mais mulheres concorram a cargos públicos e tenham possibilidades concretas de disputa. Nesse sentido, os partidos são instituições chaves para operar uma mudança de cenário que propicie essas condições, principalmente em suas estruturas internas. É urgente que tenhamos um comprometimento das direções partidárias em garantir espaço às candidatas mulheres, em especial para as mulheres negras. Este espaço, obviamente, deve ter reflexos no tempo de televisão, na maior visibilidade das militantes que encaram a dura tarefa de disputar um cargo eleitoral e, também, em ações que aproximem mais mulheres do cotidiano dirigente do partido. As cotas nas direções, em certa medida, são iniciativas que procuram solucionar essas questões. Contudo, se elas não são acompanhadas de outros empreendimentos, acabam se tornando apenas burocracias e cumprimento de resoluções que muito pouco contribuem para o empoderamento feminino. As reivindicações das mulheres por políticas públicas que atendam as suas demandas têm cada vez mais ecoado na sociedade. Nada mais coerente, que essas vozes, feministas e anti-racistas, também ecoem nos espaços eleitorais. Estamos vivendo tempos muito férteis de participação feminina e negra na política, mulheres que se organizam para reivindicar e exigir direitos. É chegada a hora que essas reivindicações ecoem nos espaços de poder através de vozes que se identifiquem com elas, não por empatia, mas sim por vivência compartilhada.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

O Sexo “sem as Nega”

16/09/2014 Ao ler este artigo do jornalista Oscar Cardoso, que com muita propriedade escreve a respeito da nova série global "O Sexo e as Nega" e transcrevo em parte, por considerar importante esta manifestação que demonstra nossa ojeriza a este tipo de desserviço às mulheres negras militantes do Movimento Negro Unificado, que tanto lutam e buscam o reconhecimento por seu trabalho, sua instrução e dedicação para a construção de um mundo sem racismo. O Sexo “sem as Nega” Oscar Henrique Marques Cardoso É jornalista, radialista e escritor. Secretário executivo da ONG Grupo Multiétnico de Empreendedores Sociais Nem bem teve sua estréia, a minissérie global “O Sexo e as Nega” escrita por Miguel Falabella se propõe a retratar o cotidiano de mulheres negras, moradoras do subúrbio carioca, que lutam muito por suas vidas. Lutam e se divertem muito. Conforme declarou em entrevista, contraria e muito a polêmica criada pelo Movimento Negro que classifica a minissérie como racista. Ao longo de nossa história, as mulheres negras sempre tiveram sua imagem degradada. Vale lembrar na história da teledramaturgia o cúmulo que a Rede Globo chegou ao produzir a clássica novela "A Escrava Isaura" tendo Lucélia Santos no papel principal. Anos depois, já nos anos 2000, a Rede Record faz um remake desta novela, a qual fez sucesso em vários países como produto made in Brazil, apresentando Bianca Rinaldi como protagonista. O incrível nas duas versões foi ter conseguido prevalecer nas personagens o fenótipo caucasiano. Lucélia Santos não tem traços negros, tampouco mestiços. Bianca Rinaldi tem seu fenótipo europeu mais forte. A emissora disponibilizou para a personagem a adoção de perucas e mexas escuras, tentando fazer com que a escrava se parecesse um pouco morena. Talvez, mais próxima do que se poderia imaginar por uma escrava. Anos se passaram e Zezé Mota ganha notoriedade como Xica da Silva, papel que Taís Araújo, jovem estreante fez na novela, cujo texto foi adaptado do cinema e exibida pela Rede Manchete de Televisão. Xica da Silva era uma mulher políticamente incorreta. Xica também era exibida de uma forma eurocentrada, pois, ao usar perucas brancas e um visual completamente europeu, negava a sua negritude. Tanto à época em que viveu, como nos dias atuais, a ascensão financeira de um negro o obriga a mudar seu figurino e seu estilo de vida. Prosperar significa negar. Anos passaram e a Rede Globo, a qual projeta nas telas "O Sexo e as Nega" lança "A Cor do Pecado". Taís Araújo interpreta a primeira protagonista negra em uma novela global. Carrega a cor negra e a etnia negra na simbologia do pecado. Porque ser mulher e ser negra é sim ser da cor do pecado. Pecado carnal, pecado do sexo. Porque no imaginário machista e eurocentrado a imagem da mulher negra é a imagem do sexo. Uma negra jamais pode ser vista como um anjo, mas sim como um demônio. Voltando a falar de história, a negra e o negro deve ser batizado, deve ser catequizado, porque ser negro é ser pagão. Ser negro é trazer o pecado em suas entranhas. Pecado que queima e pecado que diverte. (...)Ou seja, o autor da minissérie fala de um universo carioca, suburbano. Um universo o qual sabemos, para quem gosta de estudar História do Brasil, mais precisamente a partir da Abolição da Escravatura, delimitou as áreas de morros e subúrbios à comunidade negra e mestiça. Porque, para Miguel Falabella, a periferia negra é uma periferia sem cultura. A tentativa de parodiar uma série, no caso Sex in the City tentou, de forma estereotipada, prestar uma homenagem às mulheres negras, tudo isto na ótica do autor. Uma ótica a qual sabemos que a maior rede de televisão aberta e privada do país gosta de fazer. Um olhar que delimita as pessoas além do limite geográfico. E a geografia do Rio de Janeiro faz isto e muito bem. Aos negros e mestiços sobram a periferia, sobram os morros, sobram as submoradias e os baixos salários. "Sexo e as Nega" não retrata a cara do Brasil. Não retrata a realidade regional dos negros. Não fala dos negros do Sul, do Sudeste, de São Paulo, de Minas Gerais, da Bahia, de Goiás, de canto algum. Delimita o poder de uma rede de comunicação a produzir entretenimento sobre um olhar único, de uma única região da cidade do Rio de Janeiro. "Sexo e as Nega" chega às telas sem o compromisso de fazer militância e de trazer ao debate a situação do negro. Da mulher negra que recebe até 70% a menos em relação a um trabalhador branco. Não se dispõe a apresentar a falta da presença da mulher negra no empresariado. Não se debruça a apresentar a luta da mulher negra em dupla ou tripla jornada familiar. Não se propõe a mostrar a vida real das mulheres negras. Se propõe a usar da brincadeira para colocar as mulheres negras no lugar social a qual devem ficar. Ficar na periferia, não se importar em se desenvolver. Mas sim se importar em ser objeto. Fica a nós, militantes do Movimento Social Negro juntar os cacos e as sobras das consequências futuras que esta minissérie vai trazer para as jovens meninas negras. Como jornalista, conheço a força e o poder que o veículo televisão tem. Já tive oportunidade de fazer televisão e presumo e avalio as consequências futuras que o Sexo e as Nega vão trazer para todos nós. Lutamos por anos a fio para trabalhar junto as mulheres negras a estima e a valorização. Em poucos meses, a televisão se aporta a destruir anos e anos de trabalho. E promove a construção dos estereótipos. Não nos ajuda, dificulta completamente a nossa vida militante. Como seria melhor O Sexo “sem as Nega”. Para ler o artigo na íntegra acessar a Publicação no site Afropress

sábado, 13 de setembro de 2014

O que o mundo está fazendo para acabar com a pobreza?

Publicado em 28/08/2014 07h08 A desigualdade continua a ser um insulto à condição humana: quase um bilhão de pessoas vivem com fome e em pobreza extrema Por Alessandra Nilo* e Vera Masagão Ribeiro** Como seguimento à Declaração do Milênio de 2000, as Nações Unidas, conduzidas pelo ganês Kofi Annan, estabeleceram os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) visando orientar os esforços da comunidade internacional para o desenvolvimento até o ano de 2015. Longe de ser um acordo ideal ou vinculativo (que se torna lei nacional ao ser assinado), os ODM também foram considerados reducionistas diante do consagrado Ciclo de Conferências Sociais dos anos 90 e deixaram de fora questões centrais, silenciando, por exemplo, uma já evidente epidemia global de violência contra as mulheres. Apesar das críticas, porém, bastante dinheiro foi mobilizado sob o slogan “Oito Jeitos de Mudar o Mundo”, e esse esforço multilateral fez chegar investimentos em áreas essenciais. Mas, no geral, recursos e empenho das lideranças foram insuficientes para o alcance de todos os Objetivos acordados. Após uma década de trabalho, já em 2011, a ONU reconheceu que empoderar mulheres, desenvolver industrialmente e em escala num modelo ambientalmente sustentável e proteger as pessoas mais vulneráveis das múltiplas crises (como volatilidade nos preços de alimentos e energia, por exemplo) e guerras não é uma tarefa simples, nem pequena. Em tempos de Piketty, é fácil provar as iniquidades que persistem e se ampliam. Apesar da “nova geopolítica”, dos avanços tecnológicos e da diminuição de pobreza extrema em países como Brasil e China, a desigualdade continua um insulto à condição humana: quase um bilhão de pessoas vivem com fome e em pobreza extrema, a despeito dos dados abundantes que denunciam os danosos impactos deste modelo, marcado pela concentração de riqueza e no qual a pobreza continua a ser causa e consequência de relações desiguais de poder, seja do ponto de vista de gênero, econômico ou racial. Assim, apesar do prazo de validade até 2015, o debate sobre o futuro pós-2015 capturou a agenda desde a Conferência sobre Desenvolvimento Sustentável – a Rio +20, realizada no Brasil em 2012. E, combinado o propósito de reduzir a pobreza no mundo, a questão seguinte foi acordar o “como” isso seria feito. Para evitar que os novos objetivos ficassem nas mãos do secretariado da ONU (como ocorreu com os ODM), a Rio +20 logo estabeleceu dois processos intergovernamentais. O primeiro, o Grupo de Trabalho Aberto (GTA), para elaborar uma proposta de objetivos que, desta vez, fossem sustentáveis e equilibrados no tripé social, ambiental e econômico. O segundo grupo, a Comissão de Peritos sobre Financiamento do Desenvolvimento Sustentável (CPFDS), deveria recomendar como pagar a conta dos novos objetivos. Agora, ambos os relatórios estão concluídos e, juntos com o relato do Painel de Alto Nível responsável pelo monitoramento da implementação da agenda pós-2015, subsidiarão a 69ªAssembleia, que definirá a segunda fase da negociação. E as negociações, na primeira fase foram bem tensas… A proposta do GTA, após 16 meses de duros embates, foi concluída em julho, prevalecendo o acordo maior que era o de chegar a um acordo. O documento, aprovado sob aplausos nervosos após uma última negociação que durou quase 30 horas ininterruptas, foi imediatamente criticado pelos países por questões temáticas ou processuais mas, claramente, para além dos 17 Objetivos e das mais de 100 metas, o maior produto foi garantir a base dessa agenda multilateral para erradicar a pobreza. Todo consenso, porém, tem um preço e esse, pago à vista ou a prazo, não será pequeno depois de países, sociedade civil e agências da ONU divergirem tanto sobre tantos temas. Direitos sexuais e reprodutivos, igualdade de gênero, sociedades pacíficas/acesso à justiça, ocupação estrangeira, terrorismo e mudanças climáticas encabeçaram a lista das controvérsias, tendo como pano de fundo divergências sobre os meios de implementação e o debate sobre responsabilidades comuns, porém diferenciadas, entre países desenvolvidos e em desenvolvimento. O movimento global de AIDS, por exemplo, reclama que todo o ODM 6 (sobre AIDS, tuberculose e malária) tenha sido reduzido a uma meta única do objetivo de saúde. Já para o Grupo de Mulheres da sociedade civil (Women’s Major Group), a proposta atual é pouco ambiciosa, não transformará os sistemas econômicos e financeiros, nem promoverá direitos humanos. “O GTA não apresentou meios claros de como implementar as metas (…). Os direitos das mulheres a decidir sobre paz e segurança e a controlar sua sexualidade; os direitos dos povos indígenas e os direitos sexuais estão gravemente ausentes dessa agenda (…)”. De fato, mesmo com o compromisso de Ban Ki-moon de que “ninguém será deixado para trás”, a aliança entre muçulmanos extremistas e Vaticano impede gays, travestis e transgêneros, trabalhadores/as sexuais e várias populações mais vulneráveis de entrar na agenda da ONU. O problema é que esse resultado apenas reflete tendências mundiais. Aqui no Brasil, por exemplo, na evidente disputa com os fundamentalistas, a ala progressista está apanhando de 10 x 0. Basta lembrar do Plano Nacional de Educação, que ignora a discriminação por orientação sexual e o racismo nas escolas; das ideias do Estatuto do Nascituro e da Família; da repressão às manifestações populares; e da atual corrida presidencial, onde candidatos/as vendem a alma, ao mesmo tempo, tanto ao diabo quanto às Igrejas. Próximos Capítulos A 69ª Assembleia Geral irá responder as questões em aberto. O relato do GTA será a base do documento-zero da nova rodada de negociações, abrindo outra vez cada uma das frases acordadas para debate? A proposta dos ODS será aprovada como está e o novo foco será “como” implementá-los, definir mecanismos de governança e os indicadores? De um jeito ou de outro, os problemas ainda são vários. O relatório dos peritos em financiamento, por exemplo, considerou o trabalho do GTA, mas não indica como financiar os objetivos, apenas aponta opções para que cada país escolha conforme prioridades e contextos. Já o Fórum Político de Alto Nível, cujo mandato tem instruções claras sobre a participação da sociedade civil, afirma em sua Declaração do Ministerial (de julho) que um processo transparente deve conter contribuições de todas as partes interessadas, mas não deu acesso à sociedade civil aos documentos durante os debates, chegando a excluir as ONGs da observação das negociações informais. Isso é grave, pois um futuro verdadeiramente sustentável exige mecanismos de monitoramento das ações governamentais e um ambiente propício à atuação da sociedade civil. Os ODS em construção não valorizam a contribuição fundamental e o papel das comunidades para a democracia global. Tanto na ONU como no Brasil a disputa por um Estado radicalmente democrático se acirra, basta ver a atual guerra contra a Política Nacional de Participação Social. Sim, há boas propostas que precisam permanecer na segunda fase das negociações – ter conseguido um Objetivo para Equidade de Gênero e Empoderamento das Mulheres, por exemplo. Mas há enormes lacunas nos pilares sociais e ambientais e falta apetite para quebrar o paradigma, comprovadamente desastroso, de “crescimento econômico a qualquer custo”. O ODM 8, que aborda questões chave para a justiça econômica, cujo fracasso todos reconhecem, pediu parcerias globais lideradas pelos governos, mas o que vimos foi o poder do setor privado predominar sobre o interesse público, algumas vezes até corroendo a infraestrutura de serviços públicos e contribuindo para a combinação de contínuas crises – alimentos, energia e mudanças climáticas e, claro, para as crises financeiras. E o risco de que o setor privado continue a definir prioridades públicas pós-2015 continua. A Agenda pós-2015 deveria tratar da democratização da economia, e reconhecer que nenhum objetivo de erradicação da pobreza extrema será suficiente se não incorporar mecanismos para redução da riqueza extrema. Mas isso exigiria, claro, muito maior vontade política do que a disponível hoje, seja na ONU ou no Brasil onde, apesar de termos instrumentos de regulação do sistema financeiro, como taxas sobre transações financeiras, falta muito para aprovarmos uma tributação progressiva e justa. A reforma tributária hoje é tão necessária quanto a política. A verdade é que o atual debate sobre desenvolvimento sustentável na ONU influenciará modelos urbanos, matrizes energéticas e várias políticas globais, materializando-se (ou não) em serviços de saúde, educação, segurança, mobilizando bilhões de dólares nos próximos 15 anos. Afetará pessoas que dificilmente saberão dessa discussão e cuja vida a maioria dos que leem agora esse texto talvez jamais suportasse ter. Depois de andar por grandes favelas em todo mundo e trabalhar em 16 países promovendo ligações entre as políticas globais e as locais, pensar desenvolvimento, equidade e direitos humanos é também pensar nas pessoas que ainda hoje veem ratos subindo no colchão sujo de suas crianças, sem ter nada a fazer. É muito fácil explicar a relação entre o colchão sujo, os ratos e a ONU. Quem acompanhar as negociações dos próximos doze meses, entenderá. *Alessandra Nilo é jornalista, coordenadora da ONG Gestos e diretora estadual da Abong em Pernambuco. Ela é membro da Força Tarefa de Alto Nível para Cairo+20 (www.icpdtaskforce.org) e representa a sociedade civil da América Latina e Caribe no Conselho Diretor da UNAIDS. **Vera Masagão Ribeiro é Doutora em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (1998), representante da Associação Brasileira de ONGs (ABONG) e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI) Fonte: Carta Capital

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Movimento Negro discute reorganização política em Congresso da entidade na Bahia

Atividade reuniu mais de 150 lideranças de 15 estados O Movimento Negro Unificado discute reorganização política em Congresso da Entidade na Bahia Bloco Afro Ilê Aiyê fez apresentação de saudação aos congressistas na abertura do evento no Pelourinho Cerca de 150 membros do Movimento Negro Unificado (MNU) participaram entre sexta-feira e domingo (15 a 17 de agosto), em Salvador-BA, do XVII Congresso Nacional da Entidade. O objetivo da atividade foi promover o debate sobre a reorganização política de combate ao racismo do MNU. De acordo com as lideranças do movimento, o Congresso buscou retomar as estratégias de luta, de enfrentamento ao racismo e a construção de um projeto político a partir do povo negro. “As novas formas como o racismo se manifesta torna necessária uma reorganização de estratégias que o enfrente em todos os espaços e nas configurações em que ele se manifesta na área urbana e na área rural”, afirmou a coordenadora estadual do MNU em Minas Gerais, Angela Gomes, que é integrante do Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial por notório saber. De acordo com a coordenadora, nos últimos anos o programa de ação do MNU de há 36 anos teve uma parte importante de suas propostas transformadas em políticas públicas, mas, “assumir o racismo e as conquências dele nos territórios de matriz africana revela o estado da guerra racial, simbólica e física, que se manifesta no Brasil há mais de 300 anos”. “Faremos um balanço desses 36 anos, resgatando o papel do MNU enquanto escola que construiu uma pedagogia para o ensino do que foi esse atlântico negro em termos de territórios negros e que, ao mesmo tempo, revelou que a estratégia racial e de exploração de classe são indissociáveis de um projeto eugênico e eurocêntrico”, afirmou Angela Gomes. Segundo ela, o MNU foi também responsável por evidenciar que a matriz africana não desapareceu, revelando territórios simbólicos como os quilombos, o samba etc, como cultura muito mais dialógica do que a cultura eurocêntrica teria tentado impor. “O congresso vem nesse momento, retomar a importância do enfrentamento do racismo nas ruas para garantir o direito de ir e vir; reconhece a necessidade de marchas pelo enfrentamento da violência contra a juventude, contra as mulheres negras, e pelo combate à violência policial contra negros e negras”, concluiu. Coordenação de Comunicação da SEPPIR

Segure e lance

Segure e lance