Onir de Araujo
ILMO SR. DR. SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL.
Caros assessores Raquel e Tenente Vargas, ilustre Secretário recebi o email de uma das pessoas que foram ameaçadas por email. Veja que a questão está tomando dimensão, mesmo, e ainda não publicizando a ameaça de morte que recebi no dia 07.06, de seu conhecimento.
De qualquer sorte ontem, após a agenda com o Chefe Geral de Polícia pela manhã, compareci e registrei ocorrência no Pronto Atendimento do DEIC e o material , carta e envelope, foram arrecadados.
Ocorre que no meu caso específico, pouco ou nada pode ser feito pela delegacia especializada em crimes na INTERNET, entretanto, é evidente a relação entre a ameaça que sofri e as ameaças enviadas pela internet do endereço corporativo do Major Ferreira e denunciado no Site Racismo Ambiental.
O empenho dessa Secretaria tem sido fundamental, mas os indícios presentes envolvendo , pelo menos cinco membros da Corporação todos relacionados ao caso Helder revelam, que superada a Sindicância existe um claro objetivo de coação de testemunhas e tumultuar o Processo aberto perante a Justiça Militar conforme noticiado no site GT - Combate ao Racismo Ambiental no dia 12.05 pelo Promotor de Justiça do Ministério Público Militar Dr Luiz Eduardo de Oliveira, bem como, eventual processo que venha a ser aberto na Justiça Comum, pois os prejuízos do Helder em especial foram inimagináveis.
Frisei na solicitação de providências feitas na semana passada que são sérias as denúncias feitas no site racismo ambiental por J.S ,nos comentários no que se refere a situação em Jaguarão. A Carta com ameaça de morte a mim , recebida no escritório no dia 07.06 foi postada na mesma agência do Correio em Pelotas em que foram postadas as cartas de ameaça ao Helder, ou seja , agência Bento Gonçalves no Município de Pelotas.
Os envolvidos , todos da BM de Jaguarão, 3º Sargento Carlos Ricardo Ávila, o Soldado Alvair Ferreira Rodrigues , Osni Silva Freitas e Leandro Souza da Silva e o Major José Antônio Ferreira da Silva de cujo email corporativo partiram os emails ameaçadores , estão desde o início relacionados com o caso.
Importante frisar que mera negativa do Major Ferreira e disponibilização pelo mesmo de sua senha para investigação, ou a suposta existência de conspiração interna contra o mesmo , isenta qualquer dos envolvidos , considerando os indícios presentes de coação e ameaça de testemunhas e inclusive aos profissionais que atuam no caso.
O que está em jogo são princípios fundamentais que balizam o Estado Democrático de Direito sendo assim venho por meio desta requerer, além das medidas solicitadas anteriormente que:
1-Seja instado ,imediatamente, o Ministério Público Militar na pessoa do Promotor Dr Luiz Eduardo de Oliveira, para que sejam afastados os 3º Sargento Carlos Ricardo Ávila, o Soldado Alvair Ferreira Rodrigues , Osni Silva Freitas e Leandro Souza da Silva todos da BM do Município de Jaguarão-RS.
2-Seja instado ,imediatamente, o Ministério Público Militar na pessoa do Promotor Dr Luiz Eduardo de Oliveira, para que seja afastado Major José Antônio Ferreira da Silva do Comando da BM de Jaguarão RS e aberto inquérito para averiguação sobre a responsabilidade dos emais com ameças.
3-Envio de Cópia da Presente para o Ministério da Justiça e Secretaria Nacional de Direitos Humanos.
quinta-feira, 9 de junho de 2011
Negros e índios têm direito a 20% das vagas nos concursos públicos do Rio de Janeiro
Negros e índios têm direito a 20% das vagas nos concursos públicos do Rio de JaneiroDecreto que regulamenta decisão do governo carioca foi assinado ontem (06), no anexo do Palácio Guanabara
Auditório cheio no ato de assinatura do Decreto que estabelece reserva de 20% das vagas para negros e índios em concursos públicos do Rio de Janeiro. “Uma medida necessária”, acredita o governador do Estado, Sérgio Cabral, “para gerar oportunidades aos que foram excluídos”. A regra sobre a cota racial nos concursos cariocas começa a valer hoje (07), 30 dias após sua publicação.
Com a instituição do Decreto, o governo do Rio de Janeiro pretende corrigir desigualdades raciais no acesso a empregos públicos. Só para exemplificar, apenas 15, dos 800 Defensores do Estado são negros, segundo o secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, Rodrigo Neves. Citando os procuradores e auditores fiscais, o governador Sérgio Cabral acredita que, com o Decreto, as diferentes categorias do serviço público passam a contar com afro-brasileiros em seus quadros. “E um país sem miséria é um país igual para todos”, afirmou o governador.
“Este é um momento em que a câmera se vira para a nossa própria cara e há uma coerência entre a imagem e o texto”, afirmou a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, em uma analogia à declaração da atriz Léa Garcia no livro As Damas Negras, da jornalista Sandra Almada. “Na medida em que adotamos ações afirmativas como este Decreto, estamos contribuindo para reverter o modo como a sociedade brasileira invisibiliza a presença da pessoa negra”, completou.
Uma data histórica, na opinião do presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro, Paulo Roberto Santos, que participou da solenidade, assim como representantes do movimento negro, o diretor do Banco Mundial no Brasil, Makhtar Diop, e o presidente da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, Elói Santos.
Histórico
Outros Estados já adotaram sistemas de cotas para negros e índios em concursos públicos, mas judiciais uma ação direta de inconstitucionalidade. Em 2003, o Paraná reserva 10% e, este ano, o Mato Grosso do Sul destina 10% das ocupações para negros e 3% para índios. Entre os municípios brasileiros que incorporaram essa política, Piracicaba – SP, em 2002, reserva de 20% para negros, Porto Alegre, RS, em 2003, 12%, Vitória, ES, em 2004, 30%, Criciúma, SC, em 2004, 20%, Betim, MG, em 2005, 15%, e o município paranaense de Colombo, em 2007, assegura que 10% das vagas sejam ocupadas por afrodescendentes.
Coordenação de Comunicação SEPPIR
Auditório cheio no ato de assinatura do Decreto que estabelece reserva de 20% das vagas para negros e índios em concursos públicos do Rio de Janeiro. “Uma medida necessária”, acredita o governador do Estado, Sérgio Cabral, “para gerar oportunidades aos que foram excluídos”. A regra sobre a cota racial nos concursos cariocas começa a valer hoje (07), 30 dias após sua publicação.
Com a instituição do Decreto, o governo do Rio de Janeiro pretende corrigir desigualdades raciais no acesso a empregos públicos. Só para exemplificar, apenas 15, dos 800 Defensores do Estado são negros, segundo o secretário de Assistência Social e Direitos Humanos, Rodrigo Neves. Citando os procuradores e auditores fiscais, o governador Sérgio Cabral acredita que, com o Decreto, as diferentes categorias do serviço público passam a contar com afro-brasileiros em seus quadros. “E um país sem miséria é um país igual para todos”, afirmou o governador.
“Este é um momento em que a câmera se vira para a nossa própria cara e há uma coerência entre a imagem e o texto”, afirmou a ministra da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, Luiza Bairros, em uma analogia à declaração da atriz Léa Garcia no livro As Damas Negras, da jornalista Sandra Almada. “Na medida em que adotamos ações afirmativas como este Decreto, estamos contribuindo para reverter o modo como a sociedade brasileira invisibiliza a presença da pessoa negra”, completou.
Uma data histórica, na opinião do presidente do Conselho Estadual dos Direitos do Negro, Paulo Roberto Santos, que participou da solenidade, assim como representantes do movimento negro, o diretor do Banco Mundial no Brasil, Makhtar Diop, e o presidente da Fundação Cultural Palmares do Ministério da Cultura, Elói Santos.
Histórico
Outros Estados já adotaram sistemas de cotas para negros e índios em concursos públicos, mas judiciais uma ação direta de inconstitucionalidade. Em 2003, o Paraná reserva 10% e, este ano, o Mato Grosso do Sul destina 10% das ocupações para negros e 3% para índios. Entre os municípios brasileiros que incorporaram essa política, Piracicaba – SP, em 2002, reserva de 20% para negros, Porto Alegre, RS, em 2003, 12%, Vitória, ES, em 2004, 30%, Criciúma, SC, em 2004, 20%, Betim, MG, em 2005, 15%, e o município paranaense de Colombo, em 2007, assegura que 10% das vagas sejam ocupadas por afrodescendentes.
Coordenação de Comunicação SEPPIR
Exemplo a ser seguido pelos homens que também reconhecem a mulher como como um ser igual e imprescindível
O significado do Dia Internacional da Mulher
Prof. Dr. Rodrigo Santos de Oliveira
Coordenador do Núcleo de Apoio e Valorização do Estudade - NAVE
Faculdade América Latina - Caxias do Sul/RS
Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma mulher?
Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo
A frase acima nos remonta a uma série de questionamentos, muitos respondidos e outros que ainda aguardam para serem solucionados. Mas o fato fundamental é que a mulher é um dos dois gêneros que compõe o ser humano. Apesar de diferenças fisiológicas ambos são iguais na perpetuação de nossa espécie.
No mito fundador de nossa sociedade judaico-cristã tanto a mulher como o homem foram criados ao mesmo tempo. Quando o deus único dos hebreus tentou impor à primeira mulher que deveria ser subserviente ao homem ela questionou: “eu fui criada do mesmo pó e no mesmo instante, por que eu devo ser inferior?”. Esta história mítica se tornou tão perigosa para os detentores do poder patriarcal que quando houve a transposição deste mito das escritas cabalísticas para a Bíblia, a primeira mulher, Lilith, foi retirada. Ao invés disto, aparecia apenas a segunda mulher, Eva, esta sim criada de uma costela de Adão.
A ordem “natural” do mundo patriarcal estava salva com apenas um “recorta”, mas sem o “cola”. A mulher mesmo colocada no seu “lugar” subserviente era temida e injustiçada como sendo responsável pelo pecado original. Por centenas de anos esta mentira foi sendo repetida, de geração em geração até que começou a ser contestada a partir de um acontecimento.
Todo o dia 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher, é uma data que costuma ser comemorada em praticamente todo o mundo ocidental. Como tudo se torna objeto de consumo, o 8 de Março também se mercantilizou. Cosméticos, roupas, acessórios, e tudo o que faz uma mulher ser bela, são vendidos como refrigerantes em um dia de calor. A mulher, que deveria ser o centro de reflexões, se transformou no mercado. A mulher no seu próprio dia não passa de um objeto. Mas o que esquecemos ao longo do caminho?
A resposta é simples: a própria identidade da mulher.
O 8 de março não é um dia de estética, é um dia de luta pela igualdade entre os gêneros. É um dia contra o patriarcalismo que está arraigado em nossa sociedade há milênios. Se retornarmos um pouco no tempo, veremos que a mulher só conseguiu o direito de cidadania no Brasil em 1946. Até então a mulher não tinha direito ao voto. Não apenas isto, como o seu caráter jurídico era o mesmo de uma criança. O que quer dizer que até 1946 era considerada uma criança perante a sociedade, passando do poder do pai para o marido.
À mulher cabia apenas obedecer, baixar a cabeça, “aceitar” o destino cruel que lhe era imposto e nada mais. Mas a tirania não podia durar para sempre. E as próprias mulheres que foram rompendo os grilhões que às prendiam ao poder patriarcal. Não foi uma luta fácil e as resistências foram das mais violentas. Na primeira greve feminina cento e vinte e nove mulheres operárias foram queimadas dentro de uma fábrica. O crime foi pedir igualdade aos homens e melhores condições de vida e trabalho. Milhares outras morreram desde então e ainda morrem apedrejadas por pseudo-crimes, como falsas alegações de adultério (quando foi mesmo que um homem foi apedrejado por adultério?).
As condições mudaram nos últimos anos e muitas coisas melhoraram. Uma verdadeira revolução aconteceu, mas esta ainda não está consolidada e muito menos longe de ser acabada. A mulher nos dias de hoje enfrenta preconceitos, têm salários inferiores aos homens, sofre violências das mais variadas, possui longas jornadas de trabalho. Além disso, a sociedade ainda impõe à mulher que ela deve ser eternamente jovem, desta forma, elimina a possibilidade da existência de uma verdadeira sabedoria feminina, advinda da idade e da experiência. A igualdade, tão aclamada ainda não foi conquistada. Este é o desafio da nossa geração, garantir a igualdade respeitando as diferenças, evitando que a fêmea referenciada inicialmente por Simone de Beauvoir tenha que se masculinizar para enfrentar a selva de pedra. Devemos garantir que ela seja uma mulher e que suas qualidades e mesmo as suas fragilidades sejam peças fundamentais para a construção de um novo mundo, melhor e sustentável.
O 8 de Março não é uma data qualquer, é um dia de luta, de reflexão, de respeito e de harmonia. O 8 de Março serve para nos mostrar que os outros trezentos e sessenta e quatro devem ser de igualdade e não de domínio, tirania e opressão.
Prof. Dr. Rodrigo Santos de Oliveira
Coordenador do Núcleo de Apoio e Valorização do Estudade - NAVE
Faculdade América Latina - Caxias do Sul/RS
Se a função da fêmea não basta para definir a mulher, se nos recusamos também explicá-la pelo "eterno feminino" e se, no entanto, admitimos, ainda que provisoriamente, que há mulheres na terra, teremos que formular a pergunta: que é uma mulher?
Simone de Beauvoir, O Segundo Sexo
A frase acima nos remonta a uma série de questionamentos, muitos respondidos e outros que ainda aguardam para serem solucionados. Mas o fato fundamental é que a mulher é um dos dois gêneros que compõe o ser humano. Apesar de diferenças fisiológicas ambos são iguais na perpetuação de nossa espécie.
No mito fundador de nossa sociedade judaico-cristã tanto a mulher como o homem foram criados ao mesmo tempo. Quando o deus único dos hebreus tentou impor à primeira mulher que deveria ser subserviente ao homem ela questionou: “eu fui criada do mesmo pó e no mesmo instante, por que eu devo ser inferior?”. Esta história mítica se tornou tão perigosa para os detentores do poder patriarcal que quando houve a transposição deste mito das escritas cabalísticas para a Bíblia, a primeira mulher, Lilith, foi retirada. Ao invés disto, aparecia apenas a segunda mulher, Eva, esta sim criada de uma costela de Adão.
A ordem “natural” do mundo patriarcal estava salva com apenas um “recorta”, mas sem o “cola”. A mulher mesmo colocada no seu “lugar” subserviente era temida e injustiçada como sendo responsável pelo pecado original. Por centenas de anos esta mentira foi sendo repetida, de geração em geração até que começou a ser contestada a partir de um acontecimento.
Todo o dia 8 de março celebramos o Dia Internacional da Mulher, é uma data que costuma ser comemorada em praticamente todo o mundo ocidental. Como tudo se torna objeto de consumo, o 8 de Março também se mercantilizou. Cosméticos, roupas, acessórios, e tudo o que faz uma mulher ser bela, são vendidos como refrigerantes em um dia de calor. A mulher, que deveria ser o centro de reflexões, se transformou no mercado. A mulher no seu próprio dia não passa de um objeto. Mas o que esquecemos ao longo do caminho?
A resposta é simples: a própria identidade da mulher.
O 8 de março não é um dia de estética, é um dia de luta pela igualdade entre os gêneros. É um dia contra o patriarcalismo que está arraigado em nossa sociedade há milênios. Se retornarmos um pouco no tempo, veremos que a mulher só conseguiu o direito de cidadania no Brasil em 1946. Até então a mulher não tinha direito ao voto. Não apenas isto, como o seu caráter jurídico era o mesmo de uma criança. O que quer dizer que até 1946 era considerada uma criança perante a sociedade, passando do poder do pai para o marido.
À mulher cabia apenas obedecer, baixar a cabeça, “aceitar” o destino cruel que lhe era imposto e nada mais. Mas a tirania não podia durar para sempre. E as próprias mulheres que foram rompendo os grilhões que às prendiam ao poder patriarcal. Não foi uma luta fácil e as resistências foram das mais violentas. Na primeira greve feminina cento e vinte e nove mulheres operárias foram queimadas dentro de uma fábrica. O crime foi pedir igualdade aos homens e melhores condições de vida e trabalho. Milhares outras morreram desde então e ainda morrem apedrejadas por pseudo-crimes, como falsas alegações de adultério (quando foi mesmo que um homem foi apedrejado por adultério?).
As condições mudaram nos últimos anos e muitas coisas melhoraram. Uma verdadeira revolução aconteceu, mas esta ainda não está consolidada e muito menos longe de ser acabada. A mulher nos dias de hoje enfrenta preconceitos, têm salários inferiores aos homens, sofre violências das mais variadas, possui longas jornadas de trabalho. Além disso, a sociedade ainda impõe à mulher que ela deve ser eternamente jovem, desta forma, elimina a possibilidade da existência de uma verdadeira sabedoria feminina, advinda da idade e da experiência. A igualdade, tão aclamada ainda não foi conquistada. Este é o desafio da nossa geração, garantir a igualdade respeitando as diferenças, evitando que a fêmea referenciada inicialmente por Simone de Beauvoir tenha que se masculinizar para enfrentar a selva de pedra. Devemos garantir que ela seja uma mulher e que suas qualidades e mesmo as suas fragilidades sejam peças fundamentais para a construção de um novo mundo, melhor e sustentável.
O 8 de Março não é uma data qualquer, é um dia de luta, de reflexão, de respeito e de harmonia. O 8 de Março serve para nos mostrar que os outros trezentos e sessenta e quatro devem ser de igualdade e não de domínio, tirania e opressão.
domingo, 5 de junho de 2011
Guerreiro africano Fela Kuti
- Biografia do músico e ativista nigeriano Fela Kuti ganha edição nacional
Carlos Albuquerque
RIO - O nome de batismo era Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti. Mas para os amigos, as 27 mulheres e os muitos inimigos, ele era apenas Fela Kuti. Maior nome da música africana, criador do afrobeat, visionário e transgressor, amado e perseguido até a morte, por Aids, em 1997, aos 58 anos, ele viveu uma história de excessos, que se refletia não apenas em suas hipnóticas canções de mais de 20 minutos, mas também na relação com o público e as autoridades do seu país, a Nigéria.
Essa trajetória, que poderia render em Hollywood um épico sobre poder, racismo, sexo, violência e espiritualidade, gerou, em vez disso, uma fantástica biografia - "This bitch of life", escrita pelo cientista político e escritor cubano Carlos Moore -, um musical de sucesso na Broadway - "Fela!", produzido pelos astros Jay Z e Will Smith - , e um processo entre eles. Nessa ordem de entrada em cena.
- O que acontece é que fizeram o musical inspirado no meu livro e só quando ele ficou pronto é que vieram entrar em contato comigo, pedindo autorização - conta Moore, radicado há dez anos em Salvador, na Bahia, onde supervisiona a edição em português do livro, que chega às lojas em junho, com o título "Esta puta vida" (Editora Nandyala).
- Acho que pensaram que eu estava morto ou esquecido em algum lugar. E, claro, não concordei com a forma como isso foi conduzido, nem aceitei o dinheiro que me ofereceram para um acordo forçado.
Com prefácio de Gilberto Gil, "Esta puta vida" narra a trajetória de Fela na primeira pessoa, pelas suas próprias palavras. Isso foi o resultado das mais de 15 horas de entrevistas e conversas entre o autor e o músico, tanto na República Kalakuta - a desafiadora comunidade alternativa criada por ele em Lagos, onde vivia com seus amigos, músicos e esposas - como em Paris, onde os dois se encontraram durante uma excursão de Fela, em 1981.
- Conheci Fela em 1974, quando fui convidado para organizar um festival de música, que teria Stevie Wonder como atração - lembra Moore. - Desde então, cobrava dele essa biografia, para que sua trajetória fosse conhecida. Mas ele sempre foi relutante. Dizia que só queria falar para o povo africano, que não tinha interesse no Ocidente. Ele acreditava que sua música falava por ele. Era muito oral, na tradição do continente, e prezava apenas a mensagem da boca para o ouvido. Nada mais.
Duelos constantes com as autoridades:
No começo de 1981, porém, quando morava e lecionava em Paris, Moore foi surpreendido por telefonema de Fela, dizendo que estava, finalmente, pronto para falar.
- Ele me disse para pegar o próximo avião e encontrá-lo em Lagos. Foi o que fiz. Quando cheguei lá, encontrei Fela completamente deprimido com a morte da mãe, a ativista Funmilayo Ransome-Kuti, que tinha sido jogada da janela durante uma invasão da Kalakuta pela polícia, algum tempo antes. Ele achava, com razão, que os militares, que já o tinham aprisionado várias vezes, queriam matá-lo e estava se tornando obcecado com isso. Segundo ele, foi a própria Funmilayo quem apareceu em um sonho e disse para ele tornar pública a sua história.
Moore passou, então, semanas com Fela, que tinha se tornado ainda mais desafiador das autoridades, tendo reconstruído a comunidade, dessa vez em pleno gueto, além de ter tentado se candidatar à presidência do país. No local, teve contato direto com o mundo à parte em que o músico vivia.
- Diferente da primeira Kalakuta, que ficava numa área remota, a nova ficava no centro do gueto, como se fosse dentro de uma favela, de modo que se os militares tentassem uma nova invasão, teriam que passar pelo meio do povo, que idolatrava Fela - explica Moore. - Ali, ele criou um país à parte, cujas leis eram feitas por ele. Fela era um idealista, mas era ingênuo também. Acreditava que os espíritos iam ajudar o povo africano a se levantar contra os governos corruptos. Só não conseguia dizer como isso ia acontecer de fato. No lugar, ele também guardava todo o seu dinheiro, já que não queria contribuir para um governo que considerava, com razão, corrupto e autoritário. Aliás, um dos motivos dos ataques a ele feitos pelos militares era roubá-lo.
As mulheres de Fela - que renderam um capítulo à parte na biografia, intitulado "Minhas rainhas", foram entrevistadas pelo autor na segunda bateria de entrevistas com o músico, feitas em Paris, alguns meses depois.
- Todas elas ganhavam um salário e trabalhavam dentro da comunidade. Quando havia uma briga entre suas mulheres, ele mesmo fazia um julgamento e decidia quem era a culpada. Mas naquela época, ele já estava totalmente paranóico e com mania de perseguição. Não queria comer, nem beber nada no hotel em Paris e dizia que estava ouvindo vozes. Eu falei para ele procurar ajuda, mas Fela não me deu atenção.
Como recorda Moore, Fela contraiu Aids em 1986, durante um dos seus períodos na prisão, ao receber uma visita "íntima".
- Ele pegou Aids quando quase ninguém sabia o que era isso, principalmente na África. Como era forte, passou anos sem apresentar sintomas. Quando eles finalmente surgiram, em 1995, ele desprezou o atendimento médico, já que acreditava que os espíritos iam protegê-lo. Fela tinha convicção de que era imortal e ver como sua obra entrou para a História quase nos faz acreditar nisso - afirma o escritor. - Ironicamente, quem anunciou sua morte ao público foi o seu próprio irmão mais velho, Olikoye Ransome-Kuti, que havia se tornado um ativista contra a Aids na África.
Extraído de O Globo
Livro traz relatos da vida de Fela Kuti, pai do afrobeat
Marcelo de Trói - Especial para o BOM DIA
O nigeriano Fela Anikulapo-Kuti (1938-1997) foi mais que um gênio criador da música contemporânea, tornou-se uma das personalidades mais polêmicas do século 20. Com a biografia “Fela: Esta Vida Puta” (R$ 35, 349 páginas – Editora Nandyala), escrita pelo amigo do artista, o historiador cubano radicado em Salvador Carlos Moore, os brasileiros finalmente terão a oportunidade de conhecer o pensamento do pai do afrobeat.
O gênero criado pelo nigeriano, a partir dos anos 1960, pode ser definido como o cruzamento entre funk, jazz, salsa, calipso, juju, highlife, e diversos padrões percussivos africanos.
Carlos Moore acha oportuno o lançamento agora no Brasil, onde Fela começa a ser popularizado.”
James Brown dizia que era padrinho do soul, mas Fela é o pai do afrobeat. Criar um outro gênero musical é coisa de gênio. Bob Marley não inventou um gênero, Fela, sim”, defende.
É no prefácio e no epílogo que Moore analisa a vida de Fela Kuti e seu contexto histórico. Grande parte do livro é em primeira pessoa, sendo a própria fala do artista. “Intuitiva e espontânea, desconexa e contraditória, a ideologia de Fela era poderosa e original o bastante para atrair uma massa crescente de jovens urbanos excluídos”, escreve.
Moore conheceu o músico em 1974 e sempre insistia para que Fela registrasse sua vida em livro. O cantor só concordou em escrevê-la em 1981. A biografia é fruto de 15 horas de conversas entre o autor e o músico em Kalakuta — comuna na Nigéria onde Fela criou uma República e vivia com amigos, músicos e suas 27 mulheres — e também em Paris, onde se encontraram em 1981. Quando voltou dos EUA, em 1969, depois de entrar em contato com os escritos de Malcolm X, que Fela Kuti deixou de ser apenas um excelente músico para se tornar um rebelde.
Ele abandonou uma vida de conforto e se mudou para uma das favelas mais miseráveis da Nigéria. Defendia abertamente que os negros africanos deviam abandonar a religião cristã branca para voltarem às raízes da religião milenar africana. Estava no centro das atenções por praticar a não-monogamia.
Quem escutar uma das 133 canções criadas por Fela Kuti, e apenas uma parte delas está registrada nos 77 álbuns lançados em pouco mais de 20 anos de carreira, notará o jogo vocal de perguntas, respostas e repetições de influência yourubá, prática comum nas liturgias dos terreiros da religião afro-brasileira.
Algumas dessas músicas podem ter até mais de 20 minutos duração. Fela não se enquadrava ao padrão da indústria fonográfica, não atendia aos pedidos para que moderasse o tom de suas letras, nitidamente políticas.
Estão na biografia, detalhes de sua vida pessoal, relatos da infância, a relação com sua mãe, militante feminista, espancada pelo governo nigeriano em uma das muitas invasões à Kalakuta. O livro também traz depoimento de nomes como Lázaro Ramos, Stevie Wonder e prefácio do cantor brasileiro Gilberto Gil que conheceu Fela em 1977. “Um reconhecimento, propiciado pela análise acurada e a tomada em perspectiva intelectual mais ampla, daquilo que foi Fela e a sua obra. Este livro está entre os trabalhos que buscam cumprir essa missão”, escreve Gil.
Fela Kuti morreu falido e abandonado. A execução de suas músicas foi vetada nas rádios pelo governo nigeriano. “Seu complexo comunal foi destruído e seus bens dilapidados pelas incessantes batidas policiais. Foi impedido de participar de turnês. Toda esta complexa e desfavorável conjuntura manteve Fela à margem”, analisa Moore.
“Fela Kuti foi certamente uma das vozes mais marcantes de protesto libertário no mundo. Esta voz política, e a música que é inseparável dela, são nosso legado comum no século 21”, conclui Moore. Anikulapo, o segundo nome de Fela, significa aquele que tem controle sobre a morte. Por ser assim, 14 anos depois de sua passagem para o Orun (mundo espiritual em yorubá), com o lançamento de sua biografia, Fela está longe de estar morto e esquecido.
Serviço /“Fela: Esta Vida Puta”, Carlos Moore (prefácio de Gilberto Gil).
Em São Paulo, o lançamento será na Matilha Cultural - Rua Rêgo Freitas, 542
sábado, 25 de junho, a partir das 18h30
Informações: (31) 3281-5894, (31) 9119-5755; nandyalaeditora@gmail.com
Extraído de Rede Bom Dia
LANÇAMENTOS NACIONAIS
01 a 30 de junho de 2011
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06
Rio de Janeiro - 09 e 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
Porto Alegre - 29/06
Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br
Tel.: 31-3281-5894
Web Site - www.leliagonzalez.org.br
Ações Afirmativas - http://afirmativas.blogspot.com
Carlos Albuquerque
RIO - O nome de batismo era Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti. Mas para os amigos, as 27 mulheres e os muitos inimigos, ele era apenas Fela Kuti. Maior nome da música africana, criador do afrobeat, visionário e transgressor, amado e perseguido até a morte, por Aids, em 1997, aos 58 anos, ele viveu uma história de excessos, que se refletia não apenas em suas hipnóticas canções de mais de 20 minutos, mas também na relação com o público e as autoridades do seu país, a Nigéria.
Essa trajetória, que poderia render em Hollywood um épico sobre poder, racismo, sexo, violência e espiritualidade, gerou, em vez disso, uma fantástica biografia - "This bitch of life", escrita pelo cientista político e escritor cubano Carlos Moore -, um musical de sucesso na Broadway - "Fela!", produzido pelos astros Jay Z e Will Smith - , e um processo entre eles. Nessa ordem de entrada em cena.
- O que acontece é que fizeram o musical inspirado no meu livro e só quando ele ficou pronto é que vieram entrar em contato comigo, pedindo autorização - conta Moore, radicado há dez anos em Salvador, na Bahia, onde supervisiona a edição em português do livro, que chega às lojas em junho, com o título "Esta puta vida" (Editora Nandyala).
- Acho que pensaram que eu estava morto ou esquecido em algum lugar. E, claro, não concordei com a forma como isso foi conduzido, nem aceitei o dinheiro que me ofereceram para um acordo forçado.
Com prefácio de Gilberto Gil, "Esta puta vida" narra a trajetória de Fela na primeira pessoa, pelas suas próprias palavras. Isso foi o resultado das mais de 15 horas de entrevistas e conversas entre o autor e o músico, tanto na República Kalakuta - a desafiadora comunidade alternativa criada por ele em Lagos, onde vivia com seus amigos, músicos e esposas - como em Paris, onde os dois se encontraram durante uma excursão de Fela, em 1981.
- Conheci Fela em 1974, quando fui convidado para organizar um festival de música, que teria Stevie Wonder como atração - lembra Moore. - Desde então, cobrava dele essa biografia, para que sua trajetória fosse conhecida. Mas ele sempre foi relutante. Dizia que só queria falar para o povo africano, que não tinha interesse no Ocidente. Ele acreditava que sua música falava por ele. Era muito oral, na tradição do continente, e prezava apenas a mensagem da boca para o ouvido. Nada mais.
Duelos constantes com as autoridades:
No começo de 1981, porém, quando morava e lecionava em Paris, Moore foi surpreendido por telefonema de Fela, dizendo que estava, finalmente, pronto para falar.
- Ele me disse para pegar o próximo avião e encontrá-lo em Lagos. Foi o que fiz. Quando cheguei lá, encontrei Fela completamente deprimido com a morte da mãe, a ativista Funmilayo Ransome-Kuti, que tinha sido jogada da janela durante uma invasão da Kalakuta pela polícia, algum tempo antes. Ele achava, com razão, que os militares, que já o tinham aprisionado várias vezes, queriam matá-lo e estava se tornando obcecado com isso. Segundo ele, foi a própria Funmilayo quem apareceu em um sonho e disse para ele tornar pública a sua história.
Moore passou, então, semanas com Fela, que tinha se tornado ainda mais desafiador das autoridades, tendo reconstruído a comunidade, dessa vez em pleno gueto, além de ter tentado se candidatar à presidência do país. No local, teve contato direto com o mundo à parte em que o músico vivia.
- Diferente da primeira Kalakuta, que ficava numa área remota, a nova ficava no centro do gueto, como se fosse dentro de uma favela, de modo que se os militares tentassem uma nova invasão, teriam que passar pelo meio do povo, que idolatrava Fela - explica Moore. - Ali, ele criou um país à parte, cujas leis eram feitas por ele. Fela era um idealista, mas era ingênuo também. Acreditava que os espíritos iam ajudar o povo africano a se levantar contra os governos corruptos. Só não conseguia dizer como isso ia acontecer de fato. No lugar, ele também guardava todo o seu dinheiro, já que não queria contribuir para um governo que considerava, com razão, corrupto e autoritário. Aliás, um dos motivos dos ataques a ele feitos pelos militares era roubá-lo.
As mulheres de Fela - que renderam um capítulo à parte na biografia, intitulado "Minhas rainhas", foram entrevistadas pelo autor na segunda bateria de entrevistas com o músico, feitas em Paris, alguns meses depois.
- Todas elas ganhavam um salário e trabalhavam dentro da comunidade. Quando havia uma briga entre suas mulheres, ele mesmo fazia um julgamento e decidia quem era a culpada. Mas naquela época, ele já estava totalmente paranóico e com mania de perseguição. Não queria comer, nem beber nada no hotel em Paris e dizia que estava ouvindo vozes. Eu falei para ele procurar ajuda, mas Fela não me deu atenção.
Como recorda Moore, Fela contraiu Aids em 1986, durante um dos seus períodos na prisão, ao receber uma visita "íntima".
- Ele pegou Aids quando quase ninguém sabia o que era isso, principalmente na África. Como era forte, passou anos sem apresentar sintomas. Quando eles finalmente surgiram, em 1995, ele desprezou o atendimento médico, já que acreditava que os espíritos iam protegê-lo. Fela tinha convicção de que era imortal e ver como sua obra entrou para a História quase nos faz acreditar nisso - afirma o escritor. - Ironicamente, quem anunciou sua morte ao público foi o seu próprio irmão mais velho, Olikoye Ransome-Kuti, que havia se tornado um ativista contra a Aids na África.
Extraído de O Globo
Livro traz relatos da vida de Fela Kuti, pai do afrobeat
Marcelo de Trói - Especial para o BOM DIA
O nigeriano Fela Anikulapo-Kuti (1938-1997) foi mais que um gênio criador da música contemporânea, tornou-se uma das personalidades mais polêmicas do século 20. Com a biografia “Fela: Esta Vida Puta” (R$ 35, 349 páginas – Editora Nandyala), escrita pelo amigo do artista, o historiador cubano radicado em Salvador Carlos Moore, os brasileiros finalmente terão a oportunidade de conhecer o pensamento do pai do afrobeat.
O gênero criado pelo nigeriano, a partir dos anos 1960, pode ser definido como o cruzamento entre funk, jazz, salsa, calipso, juju, highlife, e diversos padrões percussivos africanos.
Carlos Moore acha oportuno o lançamento agora no Brasil, onde Fela começa a ser popularizado.”
James Brown dizia que era padrinho do soul, mas Fela é o pai do afrobeat. Criar um outro gênero musical é coisa de gênio. Bob Marley não inventou um gênero, Fela, sim”, defende.
É no prefácio e no epílogo que Moore analisa a vida de Fela Kuti e seu contexto histórico. Grande parte do livro é em primeira pessoa, sendo a própria fala do artista. “Intuitiva e espontânea, desconexa e contraditória, a ideologia de Fela era poderosa e original o bastante para atrair uma massa crescente de jovens urbanos excluídos”, escreve.
Moore conheceu o músico em 1974 e sempre insistia para que Fela registrasse sua vida em livro. O cantor só concordou em escrevê-la em 1981. A biografia é fruto de 15 horas de conversas entre o autor e o músico em Kalakuta — comuna na Nigéria onde Fela criou uma República e vivia com amigos, músicos e suas 27 mulheres — e também em Paris, onde se encontraram em 1981. Quando voltou dos EUA, em 1969, depois de entrar em contato com os escritos de Malcolm X, que Fela Kuti deixou de ser apenas um excelente músico para se tornar um rebelde.
Ele abandonou uma vida de conforto e se mudou para uma das favelas mais miseráveis da Nigéria. Defendia abertamente que os negros africanos deviam abandonar a religião cristã branca para voltarem às raízes da religião milenar africana. Estava no centro das atenções por praticar a não-monogamia.
Quem escutar uma das 133 canções criadas por Fela Kuti, e apenas uma parte delas está registrada nos 77 álbuns lançados em pouco mais de 20 anos de carreira, notará o jogo vocal de perguntas, respostas e repetições de influência yourubá, prática comum nas liturgias dos terreiros da religião afro-brasileira.
Algumas dessas músicas podem ter até mais de 20 minutos duração. Fela não se enquadrava ao padrão da indústria fonográfica, não atendia aos pedidos para que moderasse o tom de suas letras, nitidamente políticas.
Estão na biografia, detalhes de sua vida pessoal, relatos da infância, a relação com sua mãe, militante feminista, espancada pelo governo nigeriano em uma das muitas invasões à Kalakuta. O livro também traz depoimento de nomes como Lázaro Ramos, Stevie Wonder e prefácio do cantor brasileiro Gilberto Gil que conheceu Fela em 1977. “Um reconhecimento, propiciado pela análise acurada e a tomada em perspectiva intelectual mais ampla, daquilo que foi Fela e a sua obra. Este livro está entre os trabalhos que buscam cumprir essa missão”, escreve Gil.
Fela Kuti morreu falido e abandonado. A execução de suas músicas foi vetada nas rádios pelo governo nigeriano. “Seu complexo comunal foi destruído e seus bens dilapidados pelas incessantes batidas policiais. Foi impedido de participar de turnês. Toda esta complexa e desfavorável conjuntura manteve Fela à margem”, analisa Moore.
“Fela Kuti foi certamente uma das vozes mais marcantes de protesto libertário no mundo. Esta voz política, e a música que é inseparável dela, são nosso legado comum no século 21”, conclui Moore. Anikulapo, o segundo nome de Fela, significa aquele que tem controle sobre a morte. Por ser assim, 14 anos depois de sua passagem para o Orun (mundo espiritual em yorubá), com o lançamento de sua biografia, Fela está longe de estar morto e esquecido.
Serviço /“Fela: Esta Vida Puta”, Carlos Moore (prefácio de Gilberto Gil).
Em São Paulo, o lançamento será na Matilha Cultural - Rua Rêgo Freitas, 542
sábado, 25 de junho, a partir das 18h30
Informações: (31) 3281-5894, (31) 9119-5755; nandyalaeditora@gmail.com
Extraído de Rede Bom Dia
LANÇAMENTOS NACIONAIS
01 a 30 de junho de 2011
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06
Rio de Janeiro - 09 e 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
Porto Alegre - 29/06
Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br
Tel.: 31-3281-5894
Web Site - www.leliagonzalez.org.br
Ações Afirmativas - http://afirmativas.blogspot.com
quarta-feira, 1 de junho de 2011
UBUNTU
"Uma pessoa é uma pessoa por causa das outras pessoas".
Ditado sul africano da tribo Ubuntu
A jornalista e filósofa Lia Diskin no Festival Mundial da Paz em Florianópolis (2006) nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta para casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo então, propôs uma brincadeira para as crianças que achou ser inofensiva.
Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, pôs tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!" instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
Ele ficou admirado. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: Sou o que sou, devido ao que todos nós somos.
Ditado sul africano da tribo Ubuntu
A jornalista e filósofa Lia Diskin no Festival Mundial da Paz em Florianópolis (2006) nos presenteou com um caso de uma tribo na África chamada Ubuntu. Ela contou que um antropólogo estava estudando os usos e costumes da tribo e, quando terminou seu trabalho, teve que esperar pelo transporte que o levaria até o aeroporto de volta para casa. Sobrava muito tempo, mas ele não queria catequizar os membros da tribo então, propôs uma brincadeira para as crianças que achou ser inofensiva.
Comprou uma porção de doces e guloseimas na cidade, pôs tudo num cesto bem bonito com laço de fita e tudo e colocou debaixo de uma árvore. Aí ele chamou as crianças e combinou que quando ele dissesse "já!", elas deveriam sair correndo até o cesto e a que chegasse primeiro ganharia todos os doces que estavam lá dentro.
As crianças se posicionaram na linha demarcatória que ele desenhou no chão e esperaram pelo sinal combinado. Quando ele disse "Já!" instantaneamente todas as crianças se deram as mãos e saíram correndo em direção à árvore com o cesto. Chegando lá, começaram a distribuir os doces entre si e a comerem felizes.
O antropólogo foi ao encontro delas e perguntou porque elas tinham ido todas juntas se uma só poderia ficar com tudo que havia no cesto e, assim, ganhar muito mais doces. Elas simplesmente responderam: "Ubuntu, tio. Como uma de nós poderia ficar feliz se todas as outras estivessem tristes?"
Ele ficou admirado. Meses e meses trabalhando nisso, estudando a tribo, e ainda não havia compreendido, de verdade, a essência daquele povo. Ou jamais teria proposto uma competição, certo?
Ubuntu significa: Sou o que sou, devido ao que todos nós somos.
domingo, 29 de maio de 2011
Guerreiro africano
- Biografia do músico e ativista nigeriano Fela Kuti ganha edição nacional
Carlos Albuquerque
RIO - O nome de batismo era Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti. Mas para os amigos, as 27 mulheres e os muitos inimigos, ele era apenas Fela Kuti. Maior nome da música africana, criador do afrobeat, visionário e transgressor, amado e perseguido até a morte, por Aids, em 1997, aos 58 anos, ele viveu uma história de excessos, que se refletia não apenas em suas hipnóticas canções de mais de 20 minutos, mas também na relação com o público e as autoridades do seu país, a Nigéria.
Essa trajetória, que poderia render em Hollywood um épico sobre poder, racismo, sexo, violência e espiritualidade, gerou, em vez disso, uma fantástica biografia - "This bitch of life", escrita pelo cientista político e escritor cubano Carlos Moore -, um musical de sucesso na Broadway - "Fela!", produzido pelos astros Jay Z e Will Smith - , e um processo entre eles. Nessa ordem de entrada em cena.
- O que acontece é que fizeram o musical inspirado no meu livro e só quando ele ficou pronto é que vieram entrar em contato comigo, pedindo autorização - conta Moore, radicado há dez anos em Salvador, na Bahia, onde supervisiona a edição em português do livro, que chega às lojas em junho, com o título "Esta puta vida" (Editora Nandyala).
- Acho que pensaram que eu estava morto ou esquecido em algum lugar. E, claro, não concordei com a forma como isso foi conduzido, nem aceitei o dinheiro que me ofereceram para um acordo forçado.
Com prefácio de Gilberto Gil, "Esta puta vida" narra a trajetória de Fela na primeira pessoa, pelas suas próprias palavras. Isso foi o resultado das mais de 15 horas de entrevistas e conversas entre o autor e o músico, tanto na República Kalakuta - a desafiadora comunidade alternativa criada por ele em Lagos, onde vivia com seus amigos, músicos e esposas - como em Paris, onde os dois se encontraram durante uma excursão de Fela, em 1981.
- Conheci Fela em 1974, quando fui convidado para organizar um festival de música, que teria Stevie Wonder como atração - lembra Moore. - Desde então, cobrava dele essa biografia, para que sua trajetória fosse conhecida. Mas ele sempre foi relutante. Dizia que só queria falar para o povo africano, que não tinha interesse no Ocidente. Ele acreditava que sua música falava por ele. Era muito oral, na tradição do continente, e prezava apenas a mensagem da boca para o ouvido. Nada mais.
Duelos constantes com as autoridades:
No começo de 1981, porém, quando morava e lecionava em Paris, Moore foi surpreendido por telefonema de Fela, dizendo que estava, finalmente, pronto para falar.
- Ele me disse para pegar o próximo avião e encontrá-lo em Lagos. Foi o que fiz. Quando cheguei lá, encontrei Fela completamente deprimido com a morte da mãe, a ativista Funmilayo Ransome-Kuti, que tinha sido jogada da janela durante uma invasão da Kalakuta pela polícia, algum tempo antes. Ele achava, com razão, que os militares, que já o tinham aprisionado várias vezes, queriam matá-lo e estava se tornando obcecado com isso. Segundo ele, foi a própria Funmilayo quem apareceu em um sonho e disse para ele tornar pública a sua história.
Moore passou, então, semanas com Fela, que tinha se tornado ainda mais desafiador das autoridades, tendo reconstruído a comunidade, dessa vez em pleno gueto, além de ter tentado se candidatar à presidência do país. No local, teve contato direto com o mundo à parte em que o músico vivia.
- Diferente da primeira Kalakuta, que ficava numa área remota, a nova ficava no centro do gueto, como se fosse dentro de uma favela, de modo que se os militares tentassem uma nova invasão, teriam que passar pelo meio do povo, que idolatrava Fela - explica Moore. - Ali, ele criou um país à parte, cujas leis eram feitas por ele. Fela era um idealista, mas era ingênuo também. Acreditava que os espíritos iam ajudar o povo africano a se levantar contra os governos corruptos. Só não conseguia dizer como isso ia acontecer de fato. No lugar, ele também guardava todo o seu dinheiro, já que não queria contribuir para um governo que considerava, com razão, corrupto e autoritário. Aliás, um dos motivos dos ataques a ele feitos pelos militares era roubá-lo.
As mulheres de Fela - que renderam um capítulo à parte na biografia, intitulado "Minhas rainhas", foram entrevistadas pelo autor na segunda bateria de entrevistas com o músico, feitas em Paris, alguns meses depois.
- Todas elas ganhavam um salário e trabalhavam dentro da comunidade. Quando havia uma briga entre suas mulheres, ele mesmo fazia um julgamento e decidia quem era a culpada. Mas naquela época, ele já estava totalmente paranóico e com mania de perseguição. Não queria comer, nem beber nada no hotel em Paris e dizia que estava ouvindo vozes. Eu falei para ele procurar ajuda, mas Fela não me deu atenção.
Como recorda Moore, Fela contraiu Aids em 1986, durante um dos seus períodos na prisão, ao receber uma visita "íntima".
- Ele pegou Aids quando quase ninguém sabia o que era isso, principalmente na África. Como era forte, passou anos sem apresentar sintomas. Quando eles finalmente surgiram, em 1995, ele desprezou o atendimento médico, já que acreditava que os espíritos iam protegê-lo. Fela tinha convicção de que era imortal e ver como sua obra entrou para a História quase nos faz acreditar nisso - afirma o escritor. - Ironicamente, quem anunciou sua morte ao público foi o seu próprio irmão mais velho, Olikoye Ransome-Kuti, que havia se tornado um ativista contra a Aids na África.
Extraído de O Globo
Livro traz relatos da vida de Fela Kuti, pai do afrobeat
Marcelo de Trói - Especial para o BOM DIA
O nigeriano Fela Anikulapo-Kuti (1938-1997) foi mais que um gênio criador da música contemporânea, tornou-se uma das personalidades mais polêmicas do século 20. Com a biografia “Fela: Esta Vida Puta” (R$ 35, 349 páginas – Editora Nandyala), escrita pelo amigo do artista, o historiador cubano radicado em Salvador Carlos Moore, os brasileiros finalmente terão a oportunidade de conhecer o pensamento do pai do afrobeat.
O gênero criado pelo nigeriano, a partir dos anos 1960, pode ser definido como o cruzamento entre funk, jazz, salsa, calipso, juju, highlife, e diversos padrões percussivos africanos.
Carlos Moore acha oportuno o lançamento agora no Brasil, onde Fela começa a ser popularizado.”
James Brown dizia que era padrinho do soul, mas Fela é o pai do afrobeat. Criar um outro gênero musical é coisa de gênio. Bob Marley não inventou um gênero, Fela, sim”, defende.
É no prefácio e no epílogo que Moore analisa a vida de Fela Kuti e seu contexto histórico. Grande parte do livro é em primeira pessoa, sendo a própria fala do artista. “Intuitiva e espontânea, desconexa e contraditória, a ideologia de Fela era poderosa e original o bastante para atrair uma massa crescente de jovens urbanos excluídos”, escreve.
Moore conheceu o músico em 1974 e sempre insistia para que Fela registrasse sua vida em livro. O cantor só concordou em escrevê-la em 1981. A biografia é fruto de 15 horas de conversas entre o autor e o músico em Kalakuta — comuna na Nigéria onde Fela criou uma República e vivia com amigos, músicos e suas 27 mulheres — e também em Paris, onde se encontraram em 1981. Quando voltou dos EUA, em 1969, depois de entrar em contato com os escritos de Malcolm X, que Fela Kuti deixou de ser apenas um excelente músico para se tornar um rebelde.
Ele abandonou uma vida de conforto e se mudou para uma das favelas mais miseráveis da Nigéria. Defendia abertamente que os negros africanos deviam abandonar a religião cristã branca para voltarem às raízes da religião milenar africana. Estava no centro das atenções por praticar a não-monogamia.
Quem escutar uma das 133 canções criadas por Fela Kuti, e apenas uma parte delas está registrada nos 77 álbuns lançados em pouco mais de 20 anos de carreira, notará o jogo vocal de perguntas, respostas e repetições de influência yourubá, prática comum nas liturgias dos terreiros da religião afro-brasileira.
Algumas dessas músicas podem ter até mais de 20 minutos duração. Fela não se enquadrava ao padrão da indústria fonográfica, não atendia aos pedidos para que moderasse o tom de suas letras, nitidamente políticas.
Estão na biografia, detalhes de sua vida pessoal, relatos da infância, a relação com sua mãe, militante feminista, espancada pelo governo nigeriano em uma das muitas invasões à Kalakuta. O livro também traz depoimento de nomes como Lázaro Ramos, Stevie Wonder e prefácio do cantor brasileiro Gilberto Gil que conheceu Fela em 1977. “Um reconhecimento, propiciado pela análise acurada e a tomada em perspectiva intelectual mais ampla, daquilo que foi Fela e a sua obra. Este livro está entre os trabalhos que buscam cumprir essa missão”, escreve Gil.
Fela Kuti morreu falido e abandonado. A execução de suas músicas foi vetada nas rádios pelo governo nigeriano. “Seu complexo comunal foi destruído e seus bens dilapidados pelas incessantes batidas policiais. Foi impedido de participar de turnês. Toda esta complexa e desfavorável conjuntura manteve Fela à margem”, analisa Moore.
“Fela Kuti foi certamente uma das vozes mais marcantes de protesto libertário no mundo. Esta voz política, e a música que é inseparável dela, são nosso legado comum no século 21”, conclui Moore. Anikulapo, o segundo nome de Fela, significa aquele que tem controle sobre a morte. Por ser assim, 14 anos depois de sua passagem para o Orun (mundo espiritual em yorubá), com o lançamento de sua biografia, Fela está longe de estar morto e esquecido.
Serviço /“Fela: Esta Vida Puta”, Carlos Moore (prefácio de Gilberto Gil).
Em São Paulo, o lançamento será na Matilha Cultural - Rua Rêgo Freitas, 542
sábado, 25 de junho, a partir das 18h30
Informações: (31) 3281-5894, (31) 9119-5755; nandyalaeditora@gmail.com
Extraído de Rede Bom Dia
LANÇAMENTOS NACIONAIS
01 a 30 de junho de 2011
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06
Rio de Janeiro - 09 e 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
Porto Alegre - 29/06
Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br
Tel.: 31-3281-5894
Web Site - www.leliagonzalez.org.br
Ações Afirmativas - http://afirmativas.blogspot.com
Carlos Albuquerque
RIO - O nome de batismo era Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti. Mas para os amigos, as 27 mulheres e os muitos inimigos, ele era apenas Fela Kuti. Maior nome da música africana, criador do afrobeat, visionário e transgressor, amado e perseguido até a morte, por Aids, em 1997, aos 58 anos, ele viveu uma história de excessos, que se refletia não apenas em suas hipnóticas canções de mais de 20 minutos, mas também na relação com o público e as autoridades do seu país, a Nigéria.
Essa trajetória, que poderia render em Hollywood um épico sobre poder, racismo, sexo, violência e espiritualidade, gerou, em vez disso, uma fantástica biografia - "This bitch of life", escrita pelo cientista político e escritor cubano Carlos Moore -, um musical de sucesso na Broadway - "Fela!", produzido pelos astros Jay Z e Will Smith - , e um processo entre eles. Nessa ordem de entrada em cena.
- O que acontece é que fizeram o musical inspirado no meu livro e só quando ele ficou pronto é que vieram entrar em contato comigo, pedindo autorização - conta Moore, radicado há dez anos em Salvador, na Bahia, onde supervisiona a edição em português do livro, que chega às lojas em junho, com o título "Esta puta vida" (Editora Nandyala).
- Acho que pensaram que eu estava morto ou esquecido em algum lugar. E, claro, não concordei com a forma como isso foi conduzido, nem aceitei o dinheiro que me ofereceram para um acordo forçado.
Com prefácio de Gilberto Gil, "Esta puta vida" narra a trajetória de Fela na primeira pessoa, pelas suas próprias palavras. Isso foi o resultado das mais de 15 horas de entrevistas e conversas entre o autor e o músico, tanto na República Kalakuta - a desafiadora comunidade alternativa criada por ele em Lagos, onde vivia com seus amigos, músicos e esposas - como em Paris, onde os dois se encontraram durante uma excursão de Fela, em 1981.
- Conheci Fela em 1974, quando fui convidado para organizar um festival de música, que teria Stevie Wonder como atração - lembra Moore. - Desde então, cobrava dele essa biografia, para que sua trajetória fosse conhecida. Mas ele sempre foi relutante. Dizia que só queria falar para o povo africano, que não tinha interesse no Ocidente. Ele acreditava que sua música falava por ele. Era muito oral, na tradição do continente, e prezava apenas a mensagem da boca para o ouvido. Nada mais.
Duelos constantes com as autoridades:
No começo de 1981, porém, quando morava e lecionava em Paris, Moore foi surpreendido por telefonema de Fela, dizendo que estava, finalmente, pronto para falar.
- Ele me disse para pegar o próximo avião e encontrá-lo em Lagos. Foi o que fiz. Quando cheguei lá, encontrei Fela completamente deprimido com a morte da mãe, a ativista Funmilayo Ransome-Kuti, que tinha sido jogada da janela durante uma invasão da Kalakuta pela polícia, algum tempo antes. Ele achava, com razão, que os militares, que já o tinham aprisionado várias vezes, queriam matá-lo e estava se tornando obcecado com isso. Segundo ele, foi a própria Funmilayo quem apareceu em um sonho e disse para ele tornar pública a sua história.
Moore passou, então, semanas com Fela, que tinha se tornado ainda mais desafiador das autoridades, tendo reconstruído a comunidade, dessa vez em pleno gueto, além de ter tentado se candidatar à presidência do país. No local, teve contato direto com o mundo à parte em que o músico vivia.
- Diferente da primeira Kalakuta, que ficava numa área remota, a nova ficava no centro do gueto, como se fosse dentro de uma favela, de modo que se os militares tentassem uma nova invasão, teriam que passar pelo meio do povo, que idolatrava Fela - explica Moore. - Ali, ele criou um país à parte, cujas leis eram feitas por ele. Fela era um idealista, mas era ingênuo também. Acreditava que os espíritos iam ajudar o povo africano a se levantar contra os governos corruptos. Só não conseguia dizer como isso ia acontecer de fato. No lugar, ele também guardava todo o seu dinheiro, já que não queria contribuir para um governo que considerava, com razão, corrupto e autoritário. Aliás, um dos motivos dos ataques a ele feitos pelos militares era roubá-lo.
As mulheres de Fela - que renderam um capítulo à parte na biografia, intitulado "Minhas rainhas", foram entrevistadas pelo autor na segunda bateria de entrevistas com o músico, feitas em Paris, alguns meses depois.
- Todas elas ganhavam um salário e trabalhavam dentro da comunidade. Quando havia uma briga entre suas mulheres, ele mesmo fazia um julgamento e decidia quem era a culpada. Mas naquela época, ele já estava totalmente paranóico e com mania de perseguição. Não queria comer, nem beber nada no hotel em Paris e dizia que estava ouvindo vozes. Eu falei para ele procurar ajuda, mas Fela não me deu atenção.
Como recorda Moore, Fela contraiu Aids em 1986, durante um dos seus períodos na prisão, ao receber uma visita "íntima".
- Ele pegou Aids quando quase ninguém sabia o que era isso, principalmente na África. Como era forte, passou anos sem apresentar sintomas. Quando eles finalmente surgiram, em 1995, ele desprezou o atendimento médico, já que acreditava que os espíritos iam protegê-lo. Fela tinha convicção de que era imortal e ver como sua obra entrou para a História quase nos faz acreditar nisso - afirma o escritor. - Ironicamente, quem anunciou sua morte ao público foi o seu próprio irmão mais velho, Olikoye Ransome-Kuti, que havia se tornado um ativista contra a Aids na África.
Extraído de O Globo
Livro traz relatos da vida de Fela Kuti, pai do afrobeat
Marcelo de Trói - Especial para o BOM DIA
O nigeriano Fela Anikulapo-Kuti (1938-1997) foi mais que um gênio criador da música contemporânea, tornou-se uma das personalidades mais polêmicas do século 20. Com a biografia “Fela: Esta Vida Puta” (R$ 35, 349 páginas – Editora Nandyala), escrita pelo amigo do artista, o historiador cubano radicado em Salvador Carlos Moore, os brasileiros finalmente terão a oportunidade de conhecer o pensamento do pai do afrobeat.
O gênero criado pelo nigeriano, a partir dos anos 1960, pode ser definido como o cruzamento entre funk, jazz, salsa, calipso, juju, highlife, e diversos padrões percussivos africanos.
Carlos Moore acha oportuno o lançamento agora no Brasil, onde Fela começa a ser popularizado.”
James Brown dizia que era padrinho do soul, mas Fela é o pai do afrobeat. Criar um outro gênero musical é coisa de gênio. Bob Marley não inventou um gênero, Fela, sim”, defende.
É no prefácio e no epílogo que Moore analisa a vida de Fela Kuti e seu contexto histórico. Grande parte do livro é em primeira pessoa, sendo a própria fala do artista. “Intuitiva e espontânea, desconexa e contraditória, a ideologia de Fela era poderosa e original o bastante para atrair uma massa crescente de jovens urbanos excluídos”, escreve.
Moore conheceu o músico em 1974 e sempre insistia para que Fela registrasse sua vida em livro. O cantor só concordou em escrevê-la em 1981. A biografia é fruto de 15 horas de conversas entre o autor e o músico em Kalakuta — comuna na Nigéria onde Fela criou uma República e vivia com amigos, músicos e suas 27 mulheres — e também em Paris, onde se encontraram em 1981. Quando voltou dos EUA, em 1969, depois de entrar em contato com os escritos de Malcolm X, que Fela Kuti deixou de ser apenas um excelente músico para se tornar um rebelde.
Ele abandonou uma vida de conforto e se mudou para uma das favelas mais miseráveis da Nigéria. Defendia abertamente que os negros africanos deviam abandonar a religião cristã branca para voltarem às raízes da religião milenar africana. Estava no centro das atenções por praticar a não-monogamia.
Quem escutar uma das 133 canções criadas por Fela Kuti, e apenas uma parte delas está registrada nos 77 álbuns lançados em pouco mais de 20 anos de carreira, notará o jogo vocal de perguntas, respostas e repetições de influência yourubá, prática comum nas liturgias dos terreiros da religião afro-brasileira.
Algumas dessas músicas podem ter até mais de 20 minutos duração. Fela não se enquadrava ao padrão da indústria fonográfica, não atendia aos pedidos para que moderasse o tom de suas letras, nitidamente políticas.
Estão na biografia, detalhes de sua vida pessoal, relatos da infância, a relação com sua mãe, militante feminista, espancada pelo governo nigeriano em uma das muitas invasões à Kalakuta. O livro também traz depoimento de nomes como Lázaro Ramos, Stevie Wonder e prefácio do cantor brasileiro Gilberto Gil que conheceu Fela em 1977. “Um reconhecimento, propiciado pela análise acurada e a tomada em perspectiva intelectual mais ampla, daquilo que foi Fela e a sua obra. Este livro está entre os trabalhos que buscam cumprir essa missão”, escreve Gil.
Fela Kuti morreu falido e abandonado. A execução de suas músicas foi vetada nas rádios pelo governo nigeriano. “Seu complexo comunal foi destruído e seus bens dilapidados pelas incessantes batidas policiais. Foi impedido de participar de turnês. Toda esta complexa e desfavorável conjuntura manteve Fela à margem”, analisa Moore.
“Fela Kuti foi certamente uma das vozes mais marcantes de protesto libertário no mundo. Esta voz política, e a música que é inseparável dela, são nosso legado comum no século 21”, conclui Moore. Anikulapo, o segundo nome de Fela, significa aquele que tem controle sobre a morte. Por ser assim, 14 anos depois de sua passagem para o Orun (mundo espiritual em yorubá), com o lançamento de sua biografia, Fela está longe de estar morto e esquecido.
Serviço /“Fela: Esta Vida Puta”, Carlos Moore (prefácio de Gilberto Gil).
Em São Paulo, o lançamento será na Matilha Cultural - Rua Rêgo Freitas, 542
sábado, 25 de junho, a partir das 18h30
Informações: (31) 3281-5894, (31) 9119-5755; nandyalaeditora@gmail.com
Extraído de Rede Bom Dia
LANÇAMENTOS NACIONAIS
01 a 30 de junho de 2011
João Pessoa - 01/06
Recife - 02/06
Salvador - 03/06
Rio de Janeiro - 09 e 11/06
Belo Horizonte - 14/06
São Paulo - 25/06
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Para saber sobre o lançamento em sua Cidade, entre em contato: atendimento@nandyalalivros.com.br
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Ações Afirmativas - http://afirmativas.blogspot.com
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Corpo de Abdias Nascimento será velado amanhã na Câmara dos Vereadores do Rio
Agência Brasil – 25/05/2011
- O corpo do ex-senador Abdias Nascimento será velado a partir das 18h de amanhã (26) na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, na Cinelândia, no Centro da cidade. Na sexta-feira (27), às 11h, o corpo seguirá para o crematório da Santa Casa de Misericórdia, no Caju, zona norte do Rio. Um dos maiores ativistas da luta pela cidadania dos negros no Brasil, Abdias Nascimento morreu às 22h50 da última segunda-feira (23), no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), aos 97 anos, vítima de complicações decorrentes de diabetes.
A cremação, agendada para as 13h30 de sexta-feira, será uma cerimônia restrita a familiares e amigos próximos. Em cumprimento a um desejo do próprio Abdias, suas cinzas serão levadas para a Serra da Barriga, em Alagoas, local do maior centro da resistência negra no Brasil, o Quilombo dos Palmares.
Nascido em 1914, no município de Franca (SP), Abdias Nascimento começou a luta pela igualdade racial ainda estudante, na capital paulista, onde em 1936 foi preso por protestar contra a exigência de entrar numa boate pela porta dos fundos, por ser negro. Em 1944, já vivendo no Rio de Janeiro, ele fundou o Teatro Experimental do Negro. Além de ator e dramaturgo, foi jornalista, escritor e artista plástico.
O ativista sofreu pressões durante a ditadura militar e ficou exilado 13 anos nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, Abdias Nascimento iniciou carreira política, foi deputado federal, nos anos 80, e senador, de 1991 a 1992 e de 1997 a 1999 pelo PDT.
A última homenagem em vida ao ex-senador foi a criação do Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, lançado há 15 dias pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Com inscrições abertas até 19 de agosto, o prêmio vai contemplar as melhores reportagens sobre temas relacionados à população negra.
- O corpo do ex-senador Abdias Nascimento será velado a partir das 18h de amanhã (26) na Câmara de Vereadores do Rio de Janeiro, na Cinelândia, no Centro da cidade. Na sexta-feira (27), às 11h, o corpo seguirá para o crematório da Santa Casa de Misericórdia, no Caju, zona norte do Rio. Um dos maiores ativistas da luta pela cidadania dos negros no Brasil, Abdias Nascimento morreu às 22h50 da última segunda-feira (23), no Hospital dos Servidores do Estado (HSE), aos 97 anos, vítima de complicações decorrentes de diabetes.
A cremação, agendada para as 13h30 de sexta-feira, será uma cerimônia restrita a familiares e amigos próximos. Em cumprimento a um desejo do próprio Abdias, suas cinzas serão levadas para a Serra da Barriga, em Alagoas, local do maior centro da resistência negra no Brasil, o Quilombo dos Palmares.
Nascido em 1914, no município de Franca (SP), Abdias Nascimento começou a luta pela igualdade racial ainda estudante, na capital paulista, onde em 1936 foi preso por protestar contra a exigência de entrar numa boate pela porta dos fundos, por ser negro. Em 1944, já vivendo no Rio de Janeiro, ele fundou o Teatro Experimental do Negro. Além de ator e dramaturgo, foi jornalista, escritor e artista plástico.
O ativista sofreu pressões durante a ditadura militar e ficou exilado 13 anos nos Estados Unidos. De volta ao Brasil, Abdias Nascimento iniciou carreira política, foi deputado federal, nos anos 80, e senador, de 1991 a 1992 e de 1997 a 1999 pelo PDT.
A última homenagem em vida ao ex-senador foi a criação do Prêmio Nacional Jornalista Abdias Nascimento, lançado há 15 dias pelo Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro. Com inscrições abertas até 19 de agosto, o prêmio vai contemplar as melhores reportagens sobre temas relacionados à população negra.
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